Uma investigadora portuguesa alertou hoje para a necessidade de reportar os casos de doenças transmitidas por alimentos contaminados para permitir avaliar o seu impacto, geralmente .

"Este é um problema mundial: não há reconhecimento suficiente do impacto na saúde pública de doenças transmitidas por alimentos e o impacto é sempre maior do que normalmente é reportado", disse à agência Lusa Sara Monteiro Pires.

Especialista em avaliação de risco em segurança alimentar e saúde pública na Dinamarca, onde trabalha há dez anos, foi uma de 100 especialistas convidados em 2006 pela Organização Mundial de Saúde (OMS) para avaliar a "carga da doença" ('burden of disease') das infeções transmitidas pelos alimentos.

"A OMS estabeleceu este grupo quando reconheceu não existir informação suficiente sobre o impacto na saúde pública das diferentes doenças transmitidas pelos alimentos", e ao mesmo tempo, "para comparar doenças relativamente à incidência e variedade de cada doença", disse a perita sobre o relatório da OMS "Estimativas da Carga Global das Doenças Provocadas por Alimentos", publicado no início do mês.

De acordo com este relatório, uma em cada dez pessoas sofre, todos os anos, de doenças associadas a alimentos. Entre estes doentes, 420.000 morrem, das quais 125.000 são crianças com menos de cinco anos.

"A grande mais valia deste estudo é que, finalmente, a OMS pode dar conselhos, chamar a atenção para prioridades nas diferentes regiões do mundo em relação a doenças de origem alimentar, como por exemplo, quais os agentes que estão a causar mais doenças, em termos de incidência, mortalidade e perda de qualidade de vida e quais as diferenças de região para região", explicou.

Mesmo os sistemas de saúde e vigilância muito desenvolvidos, como o da Dinamarca, ainda não têm capacidade de notificar a maior parte dos casos, disse.

"Só sabemos a ponta icebergue da verdadeira 'carga da doença', ou seja, a maior parte dos que ficam doentes com uma intoxicação alimentar não vai ao médico e, se vai, não faz análises e os agentes da doença não são reconhecidos".

Há imensos passos que falham desde do início da doença, a notificação do caso e a integração nas estatísticas de cada país, o que significa que "na maior parte dos países acaba por não haver informação da 'carga da doença' e não se faz nada para tentar reduzir a doença", acrescentou.

Este estudo da OMS revela que "o impacto [destas doenças] é tremendo em todos os países", sublinhou.

Esse impacto traduz-se "em muitos anos de vida perdidos, ou por morte prematura, ou porque as pessoas ficam incapacitadas".

Este indicador, 'Disability Adjusted Life Year', é usado pela OMS para transmitir os resultados do estudo e "só esta medida permite comparar doenças tão díspares como diarreias ou cancros", disse Sara Monteiro Pires, de 34 anos.

Em Portugal, há um sistema de notificação de doença muito sofisticado e recente, com capacidade para compilar dados e informação associada para cada paciente, afirmou.

"Falta reconhecer a importância das doenças transmitidas pelos alimentos, acima de tudo pela população, mas também pela comunidade médica", sublinhou.

Relativamente aos casos de salmonelose (infeção por salmonela), há menos de 200 casos notificados por ano em Portugal. "Os casos não notificados são mais elevados, o que se traduz num impacto muito maior da doença", explicou.

As autoridades portuguesas "trabalham para reagir no fim da cadeia alimentar e tentar assegurar que o consumidor tem acesso a alimentos seguros e assim se pode reduzir a doença", através da ação da Autoridade de Segurança Alimentar e Económica (ASAE) e de campanhas de sensibilização para cozinhar bem os alimentos.

Na Dinamarca, onde trabalha no Instituto Nacional da Alimentação da Universidade Técnica dinamarquesa, para cada caso de salmonelose reportado, sete ficam por notificar, exemplificou a cientista portuguesa.

Sara Monteiro Pires salientou que, ao contrário de muitas outras doenças com incidência elevada atualmente, como a diabetes e a obesidade, "é possível prevenir as doenças transmitidas por alimentos".

"Esta prevencão exige estratégias de controlo ao longo de toda a cadeia alimentar, desde o prado ao prato. Para definir estas estratégias de segurança alimentar e definir prioridades, é importante saber quais os agentes (bactérias, vírus, parasitas, contaminantes) causam mais doença na população, e quais os alimentos que os transmitem", concluiu.