A atribuição de vistos dourados por Portugal «pisa o risco» dos princípios, discriminando os imigrantes «em função do património», considera o sociólogo Rui Pena Pires, especialista em migrações, em declarações à Lusa.

«São as tais linhas que não se podem ultrapassar. [O visto dourado] viola o princípio da universalidade, dos critérios abstratos, gerais, impessoais, de acesso aos direitos», justifica o professor universitário, recordando os tempos da «democracia censitária», em que «as pessoas tinham acesso aos direitos em função do seu património».

Os princípios «nunca são completamente» cumpridos nas migrações, «mas, apesar de tudo, convinha que não fossem tão discriminatórios como este, baseado no património», defende, considerando que está em causa «uma questão de princípio», que outros países da União Europeia também estão a quebrar.

De acordo com dados do Governo, foram concedidos, até dezembro, 471 vistos dourados. A atribuição de vistos dourados obedece a três requisitos: aquisição de bens imóveis de valor igual ou superior a 500 mil euros, transferência de capitais em montante igual ou superior a um milhão de euros e criação de, pelo menos, dez postos de trabalho.

A Procuradoria-Geral da República está já a investigar dois investidores estrangeiros que obtiveram visto dourado em Portugal, por suspeitas de branqueamento de capitais.

«Nem acho que seja o problema da lavagem de dinheiro. Isso haverá, mas haverá com ou sem vistos gold. É um problema de princípio», insiste Rui Pena Pires.

O estrangeiro tem em Portugal «um estatuto de exclusão parcial de direitos», lembra o sociólogo. «O que estamos a dizer é que só damos esse estatuto a quem o comprar», frisa.

Sobre os fluxos migratórios em Portugal, Rui Pena Pires traça o cenário: Com a crise, não temos gente a entrar e temos muita gente a sair.»

Emigra-se não apenas por «melhores condições» de vida, mas «porque, pura e simplesmente, não há emprego, não há expectativas de carreira e não há nem para manter as pessoas que cá estão, nem para atrair outras».

«O maior regulador da imigração é o desemprego» e «as pessoas não são doidas, não se vem para Portugal para estar no desemprego», diz, sugerindo «que se aproveite este momento em que não há um pânico público, normalmente injustificado, sobre a invasão migratória, para (¿) facilitar, amanhã, a vida» aos imigrantes que venham para Portugal. «Isso era bastante mais importante do que os vistos gold e coisas do género, que nem sequer atraem qualificados», nota.

«Estamos a caminhar para uma situação parecida com a dos anos 60», com «níveis de emigração semelhantes» e em que «a imigração praticamente acabou», observa.

Atualmente, «80 mil pessoas por ano» saem de Portugal, o que, não querendo dizer que a população diminui 80 mil pessoas por ano, «porque entretanto há uns que regressam», vai «agravar alguns dos problemas demográficos» do país, explica.

Se os níveis de emigração continuarem assim «mais alguns anos», o impacto será «forte» no imediato e também a prazo. «Normalmente fica-se com um buraco de uma geração», alerta, defendendo que «só com crescimento económico» se poderá contrariar o desequilíbrio entre emigração e imigração: «Ou conseguimos inverter esta situação ou, qualquer dia, nem temos um problema de pagamento da dívida, porque não temos ninguém no país.»