A diretora regional de Cultura do Centro, que elogiou uma companhia teatral por "não incomodar" com pedidos de apoio, afirmou hoje, em comunicado enviado à agência Lusa, e perante as críticas que tem recebido por tais declarações, que não quis criticar os grupos apoiados pelo Estado.

Em circunstância alguma, quis pôr em causa o trabalho desenvolvido por todos os profissionais de teatro, independentemente das formas que encontram para financiar a sua atividade".

Em causa, estão as declarações que Celeste Amaro fez, na apresentação da programação da companhia Leirena Teatro, em Leiria, em que elogiou o grupo por não ter pedido apoio do Estado, tendo já motivado um requerimento do Bloco de Esquerda ao Ministério da Cultura, e uma exigência de demissão por parte de vários artistas da região.

Como é possível? Ainda por cima na área do teatro! Foi algo que me tocou bastante. É uma lição de como um grupo de teatro profissional, com três atores, que se dedica de corpo e alma ao seu trabalho, vive sem pedir dinheiro, não incomoda a administração central", disse então Celeste Amaro, na passada sexta-feira.

Questionada pela agência Lusa sobre se iria pôr o cargo à disposição ou demitir-se, a diretora regional da Cultura do Centro recusou-se a fazer qualquer declaração, remetendo para o comunicado.

No documento, Celeste Amaro explica que quis "valorizar a forma" como o grupo Leirena Teatro "tem desenvolvido a sua atividade, sem necessitar de qualquer apoio financeiro da Administração Central, ao longo dos seus quase sete anos de existência". "Destacar este modo de trabalho com a envolvência da comunidade, é sempre importante, sem que tal atitude ponha em causa quaisquer outras formas de financiamento", afirma.

De acordo com o comunicado, tem sido "sempre apanágio" da atual direção regional "cooperar com todas as estruturas profissionais de teatro da região Centro, mesmo em anos de maior aperto financeiro".

No entanto, frisa que é "justo" destacar "o contributo da administração local e, algumas vezes, da economia privada" no domínio da cultura, bem como valorizar aqueles "que encontram novas formas" para desenvolverem a sua atividade. "Elogiar uns nunca é criticar outros", conclui Celeste Amaro.

Petição exige demissão

O Manifesto em Defesa da Cultura e vários artistas lançaram, entretanto, uma petição pública, em que exigem a demissão de Celeste Amaro.

Na petição, dirigida ao ministro da Cultura, Luís Filipe Castro Mendes, os subscritores "repudiam as declarações da diretora regional da Cultura e afirmam que, em face da atitude que elas revelam, Celeste Amaro não tem condições para continuar no cargo".

Na petição pública agora lançada estão, entre os primeiros subscritores, o poeta e ex-diretor do Teatro Municipal da Guarda Américo Rodrigues, o diretor da companhia de Coimbra Escola da Noite, António Augusto Barros, o realizador António Ferreira, o diretor do Teatro Académico de Gil Vicente, Fernando Matos de Oliveira, a diretora do Teatrão, Isabel Craveiro, a ilustradora Ana Biscaia, a coreógrafa Leonor Barata, o encenador e ator Ricardo Correia e o docente da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra Rui Bebiano.

A subscrever a petição, estão também a professora coordenadora da Escola Superior de Teatro e Cinema de Lisboa, Eugénia Vasques, a dramaturga Patrícia Portela, a jornalista Diana Andringa, a atriz Joana Manuel e o dramaturgo Jacinto Lucas Pires, entre outros.

Apesar de a companhia Leirena ter sido elogiada por prescindir de apoios, o diretor do grupo, Frédéric da Cruz Pires, anunciou na quarta-feira, em comunicado, que vai apresentar uma candidatura para obtenção de financiamento da Direção-Geral das Artes (DGArtes).

Frédéric da Cruz Pires admitiu "inúmeras dificuldades" para prosseguir a atividade e garantiu uma candidatura ao próximo quadro de apoios públicos.

No comunicado, o diretor da companhia explica que não convidou Celeste Amaro para mostrar ter feito programação "sem subsídios" nem para se "comparar a nenhuma outra estrutura", antes como "desespero de causa", para dar a conhecer a programação para 2018 e mostrar as dificuldades que levaram à redução do elenco de sete para três atores, no último ano.

O grupo existe há sete anos e trabalha num antigo centro comercial de Leiria cedido por particulares, num espaço com salas onde chove.