A capacidade e a eficácia do trabalho humanitário no mundo pode estar em causa, alertou a Plataforma Portuguesa das ONG para o Desenvolvimento, segundo a qual há cada vez mais pedidos de ajuda, mas menos recursos financeiros disponíveis.

Em declarações à agência Lusa, a propósito do Dia Mundial da Ajuda Humanitária, que se assinala na sexta-feira, João Pereira, membro da direção da Plataforma e secretário executivo da Cáritas Portugal, fez um retrato da situação atual das organizações não-governamentais para o desenvolvimento (ONGD).

De acordo com o responsável, vive-se atualmente uma “situação de contrassenso”, em que há um aumento das necessidades humanitárias mas, paralelamente, uma redução ao nível dos donativos, seja por parte dos particulares ou empresas, e das fontes de financiamento.

Uma realidade que, segundo João Pereira, pode por em causa o trabalho humanitário, apontando que, nos últimos anos, “muitas organizações tiveram que redimensionar bastante a sua intervenção”.

“Temos feito muitas vezes este apelo, não só aos governos em Portugal, mas também aos governos da União Europeia e também a todos os governos das Nações Unidas, no sentido que estamos cada vez mais [a por] em risco a vida das pessoas, quando o imperativo humanitário fundamental é salvar vidas”, adiantou.

O responsável frisou que a intervenção humanitária tem que ser imediata e os recursos têm que estar disponíveis, sob pena de a eficácia dessa intervenção ser cada vez mais reduzida, tendo como consequência que “a probabilidade de as pessoas não sobreviverem ou terem danos ainda maiores, seja maior”.

“Se não for revertido, se a tendência se mantiver, com o aumento de situações de intervenção humanitária que há e com a diminuição de recursos, se isto se mantiver, como é óbvio, cada vez menos a capacidade de intervenção poderá chegar a mais pessoas”, alertou.

Nesse sentido, defendeu que o assinalar do Dia Mundial da Ajuda Humanitária serve precisamente para consciencializar a sociedade para uma realidade “elementar”: “Uma pessoa quando está em necessidade tem que ser ajudada”.

Segundo João Pereira, o dia vai servir para lembrar os atuais desafios da intervenção humanitária, uma vez que tem vindo a ganhar cada vez mais importância a nível internacional.

O responsável frisou que o primeiro desafio está logo no facto de existirem cerca de 125 milhões de pessoas que precisam de ajuda e a quem é preciso minorar o sofrimento, uma realidade potenciada pela guerra na Síria.

“Precisamos de uma intervenção humanitária eficaz, com a abertura de corredores humanitários ou a permissão de fazer chegar a ajuda a quem mais precisa em tempo útil e, por outro lado, que os atores humanitários não sejam considerados escudos humanos”, defendeu.

Apontou que à medida que aumenta a necessidade de uma intervenção humanitária, tem também aumentado o risco dos trabalhadores humanitários tornarem-se vítimas colaterais, dando como exemplo a Síria, o Iraque, a Turquia, mas também o Sudão, o Congo ou Myanmar.

Citando dados internacionais, durante o ano de 2015 houve registo de 109 trabalhadores humanitários mortos, 110 feridos e 68 raptados.

Por outro lado, e para não permitir que haja qualquer suspeita em relação ao trabalho feito pelas ONGD e os recursos que lhes são disponibilizados, a Plataforma defende “maior capacidade de prestação de contas”, bem como verificação no terreno do por parte de todos os atores e maior envolvimento dos doadores.

“A transparência é fundamental e têm vindo a ser criados diversos mecanismos, desde códigos de ética ou de conduta, maior política de ligação aos doadores que permitem esclarecer às pessoas que o investimento que estão a fazer é para responder àquela situação e não para contribuir para a sustentabilidade da organização”, defendeu