A defesa do condutor do autocarro que se despistou quando transportava elementos do Orfeão de Águeda vai tentar provar que o acidente resultou de falhas na manutenção do veículo, na instrução do processo-crime que começa esta quarta-feira no tribunal da Feira.

Os factos remontam a 17 de outubro de 2009, quando o autocarro com 36 ocupantes se despistou e capotou, numa curva do nó de ligação da Estrada Nacional n.º 223 com o IC2, em Escapães, Santa Maria da Feira, provocando um morto e dezenas de feridos.

A defesa do motorista, que foi acusado de um crime de homicídio por negligência e 14 crimes de ofensa à integridade física negligente, um dos quais na forma agravada, requereu a abertura da instrução para evitar a ida do arguido a julgamento.

Em declarações à Agência Lusa, a advogada Sónia Andrade, do escritório EA, que defende o condutor, disse que vão explorar o facto de o autocarro não estar eventualmente nas perfeitas condições e isso ter estado na origem do acidente. «Essa situação foi levantada pelos peritos ainda durante o inquérito e parece-me que não foi devidamente analisada», afirmou a advogada.

Na perícia realizada ao autocarro foram detetadas várias deficiências ao nível da suspensão, travagem e luzes que, segundo os advogados do motorista, «comprometem seriamente» as condições de segurança da viatura.

A defesa do arguido chama ainda a atenção para a existência de «fortes indícios» de o autocarro ter sido intervencionado entre a data do acidente e a data da realização da peritagem técnica, quando a viatura estava à guarda da empresa proprietária, que foi indicada como fiel depositária.

No relatório da perícia é levantada a possibilidade de, naquele período, ter sido substituída uma peça da caixa de direção, determinante para a segurança da viatura, devido ao facto de a referida peça «não apresentar sinais de ter sido usada» e de a zona envolvente apresentar «retoques em tinta de cor preta ainda recente».

Logo após o acidente, responsáveis da Auto-Viação Aveirense, a empresa proprietária do autocarro, negaram a existência de qualquer falha mecânica no veículo e garantiram que o condutor era experiente.

O despacho de acusação do Ministério Público, a que a Lusa teve acesso, diz que a velocidade excessiva do autocarro terá estado na origem do acidente. «O arguido conduzia desatento, não tomando as precauções devidas e de que era capaz, iniciando a aproximação à curva sem diminuir a velocidade da forma devida e sem se precaver que a podia descrever em segurança, manifestando desprezo para com as pessoas que consigo seguiam no veículo», lê-se no documento.

Na noite da tragédia, o coro do Orfeão de Águeda dirigia-se para São Paio de Oleiros, em Santa Maria da Feira, onde era esperado para as celebrações do 25.º aniversário da Associação Musical Oleirense.

Do acidente resultou um morto, uma mulher de 44 anos, sete feridos graves, entre os quais uma grávida, e 20 ligeiros.