Mais de um terço dos doentes entram nos hospitais desnutridos. Por isso, foi criado um projeto-piloto de rastreio à população feito nas farmácias, para detetar as situações de risco e agir atempadamente. A iniciativa chama-se «Agir para Nutrir» e arrancou esta quarta-feira numa farmácia em Lisboa. Será alargada às cerca de 120 farmácias aderentes ao projeto, de norte a sul do país.

«O objetivo é sensibilizar a população para a problemática da desnutrição (situação de carência prolongada de um ou mais nutrientes), vigiar o seu estado nutricional, que deve ser monitorizado, e prevenir desnutrição», explicou à Lusa Diana Mendes, dietista no Hospital de Santa Marta e responsável pelo projeto.

Na farmácia, qualquer pessoa com mais de 18 anos pode fazer a identificação do seu «perfil nutricional» de forma gratuita, bastando para isso responder a um questionário, validado por uma sociedade médica europeia, que avalia fatores como a massa corporal, o apetite ou perdas de peso recentes.

«A farmácia é encarada como um espaço na comunidade perto dos utentes e da população e o farmacêutico surge como o profissional em contacto com a população e que está apto para identificar um eventual risco nutricional». «Primeiro vamos formar os farmacêuticos, para depois passar a implementar a ferramenta».

Caso o doente apresente risco, é encaminhado para o médico assistente para procurar tratamento. Se não houver risco, o utente é aconselhado a voltar a fazer a monitorização numa próxima ida à farmácia. Além desta avaliação, o farmacêutico pode ainda dar conselhos genéricos ou recomendar algum tipo de suplementação.

A ideia surgiu da necessidade de atuar antecipadamente junto da população, para evitar que as situações de desnutrição sejam identificadas ou diagnosticadas tardiamente, quando a pessoa é admitida num hospital ou numa instituição geriátrica, como acontece atualmente.

Diana Mendes sublinha que, apesar de não estarem a aumentar os casos de desnutrição, os números são preocupantes: 5% da população europeia apresenta desnutrição e 30% a 50% dos utentes apresenta desnutrição no momento da admissão hospitalar. Em Portugal, em seis hospitais públicos, numa amostra de 1.144 doentes, verificou-se que um em cada três doentes apresentava desnutrição no momento de admissão hospitalar.

É também comum que o diagnóstico de desnutrição seja feito quando já se apresenta num estado muito avançado, sendo mais difícil o tratamento e a sua reversão. «Começa a haver a necessidade de agir antes e não só quando se recorre ao hospital. É necessário agir antes e fazer triagem com aconselhamento, para evitar que comece só quando a pessoa chega ao hospital», sublinhou.

A desnutrição surge normalmente entre a população idosa ou associada a doenças crónicas, oncológicas ou degenerativas, como Parkinson, alzheimer ou doença do nerónio motor.