Por: Catarina Pereira | 11- 3- 2011 21: 41
A mesa estava posta para quatro. Os habituais ministros do «Governo Sombra» sentaram-se aos microfones da TSF perante uma
plateia repleta de jovens ansiosos pela manifestação deste sábado.
Os convidados, como não podia deixar de ser,
eram os Deolinda, que deram o mote com o «Movimento Perpétuo Associativo». À letra original, Ana Bacalhau introduziu uma alteração
de última hora, bem apropriada ao momento e que arrancou muitos aplausos dos estudantes da Escola Superior de Comunicação
Social, em Lisboa.
«Agora sim damos a volta a isto», começou a vocalista, terminando a estrofe com um vibrante «Amanhã
vou manifestar-me...»
Na sala sentiu-se o «sobressalto cívico» que o Presidente da República pediu no discurso
da tomada de posse. O humorista Ricardo Araújo Pereira atribuiu mesmo «ao Cavaco Silva contestatário» o prémio de melhor fantasia
carnavalesca, porque «incentiva uma manifestação de pessoas que ainda têm no lombo as marcas dos bastões do tempo em que se
manifestavam contra ele».
Já o jornalista João Miguel Tavares interpretou o discurso do chefe de Estado como algo
de «lisonjeador» para os jovens que se encontravam na sala: «Ele disse que com estes políticos vocês não vão a lado nenhum,
por isso, ou fazem pela vida, ou estão lixados.»
Falando da manifestação da «Geração à Rasca», Ricardo Araújo
Pereira foi o mais crítico. «O manifesto não tem posição nenhuma, não tem um compromisso, não propõe nada», apontou. A plateia
ficou em suspenso, até que João Miguel Tavares arrancou as palmas contidas: «Estamos sempre a dizer que a sociedade civil
não faz nada, mas quando os desgraçados se organizam também dizemos mal.»
Os «Homens da Luta», que recentemente venceram
o Festival da Canção, também foram chamados à baila. «Uma coisa é haver alguma intervenção, outra é fazer destas palhaçadas
ícones», lamentou o escritor Pedro Mexia.
Para terminar a centésima edição do «Governo Sombra», os Deolinda regressaram
ao palco para mostrar mais uma vez a sua «Parva que sou» e o número de câmaras, telemóveis e iPhones que se levantaram faz
antever nova propagação em massa pela Internet.
Os músicos não vão estar presentes na manifestação, porque têm um
concerto na Galiza, mas nem por isso deixam de apelar a todos os «parvos». «Espero que esteja muita gente na rua e que
isto seja o início de alguma coisa. Espero que o grupo de cidadãos continue organizado e que possam fazer pressão para
haver um diálogo e se resolver de uma vez por todas este problema», afirmou Ana Bacalhau ao tvi24.pt.
O grupo
não quer ser identificado como o responsável por esta vontade de sair à rua e reivindicar trabalho para uma geração qualificada.
«A canção trouxe à baila este assunto, mas nós somos só responsáveis enquanto cidadãos», acrescentou a vocalista.
Falta
agora colocar em prática todo um movimento que esteve adormecido até «a parva» acordar os Coliseus de Lisboa e do Porto. Aquela
que já é considerada uma canção de intervenção dos novos tempos terá a sua quota-parte de responsabilidade no número de desempregados,
precários ou simplesmente pessoas «à rasca» que sairão à rua este sábado.
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