Muitos dos doentes tratados ao cancro de cabeça e pescoço ficam sem dentes e sem a possibilidade de comerem ingredientes sólidos, razão para uma petição que reclama o apoio do Serviço Nacional de Saúde (SNS) para as próteses dentárias.

No seguimento dos tratamentos, os doentes ficam sem dentes. Como o SNS não cobre as próteses dentárias, a maioria – proveniente de meios desfavorecidos – vai viver sem dentes, sem poder conviver socialmente e sem a possibilidade de ingerirem alimentos sólidos”, explicou à Lusa a oncologista Ana Castro, que preside ao Grupo de Estudos do Cancro de Cabeça e Pescoço.

Este grupo e a Associação dos Amigos dos Doentes com Cancro Oral lançaram uma petição para levar à Assembleia da República a discussão do apoio do SNS na reabilitação oral dos doentes com esta patologia.

Ana Castro, primeira subscritora da petição, recorda que estes doentes não têm dinheiro para as próteses dentárias e que a inexistência de dentes lhes coloca graves problemas, nomeadamente ao nível laboral, pois muitos ainda estão em idade ativa.

Uma das limitações prende-se com a impossibilidade de comer alimentos sólidos e o afastamento dos convívios sociais à mesa, tão típicos dos portugueses, lembrou a médica.

Para Ana Castro, a despesa não deverá ser assim tão significativa pois, “infelizmente, dos 2.500 a 3.000 novos casos que surgem todos os anos, cerca de metade não chega a precisar de tratamento ou não resiste à doença”.

A nossa estimativa é de que deverão ser precisas próteses para menos de 1.500 doentes”, afirmou.

A petição marca o Dia Mundial do Cancro de Cabeça e Pescoço, que se assinala na próxima quarta-feira e que vai ainda contar com uma campanha de rastreios na Volta a Portugal em Bicicleta.

Em Portugal, os cancros de cabeça e pescoço são a quarta doença com maior incidência em indivíduos do sexo masculino, matando três portugueses por dia.

Segundo a Associação dos Amigos dos Doentes com Cancro Oral, todos os anos registam-se mais de 2.500 novos casos em Portugal, sendo 85% das vítimas fumadores ou ex-fumadores.

Estes cancros são, muitas vezes, infelizmente diagnosticados em fases tardias, uma vez que há uma tendência para desvalorização dos sintomas”, afirmou José Alves, presidente da Associação dos Amigos dos Doentes com Cancro Oral.

Por esta razão, prosseguiu, “o diagnóstico precoce é muito importante. Os sinais de alerta são ainda pouco conhecidos pela população em geral e podem muitas vezes ser confundidos com outras doenças: feridas na boca que não cicatrizam, língua dorida ou com úlceras, rouquidão persistente, nariz entupido ou hemorragias nasais, dificuldade ao engolir ou uma simples dor de garganta”.

Estes sinais não devem ser ignorados e devem merecer uma atenção especial se persistirem mais de três semanas”, alerta José Alves.

O Grupo de Estudos vai ter este ano um stand nos pontos de chegada de todas as etapas da Volta a Portugal em Bicicleta, onde será possível realizar diariamente rastreios gratuitos ao cancro de cabeça e pescoço, mediante uma inscrição prévia no local.

Trata-se do segundo ano que o Grupo celebra o Dia Mundial do Cancro de Cabeça e Pescoço.

O Dia Mundial do Cancro de Cabeça e Pescoço, instituído em julho de 2014, em Nova Iorque, durante o 5º Congresso da Federação Internacional da Sociedade de Oncologia de Cabeça e Pescoço (IFNHOS), tem como objetivo ser mais um momento a nível mundial de sensibilização da população para a intervenção precoce sobre os fatores de risco clássicos, como o tabaco e o álcool, bem como para outros como a infeção HPV e as lesões potencialmente malignas da cavidade oral.

Este cancro mata três portugueses por dia.