Os catorze médicos que «têm assumido» a chefia de equipa da Urgência do Hospital do Litoral Alentejano (HLA), em Santiago do Cacém, recusaram esta quinta-feira continuar à frente do serviço, invocando «degradação das condições de trabalho».

Numa carta dirigida esta quinta-feira ao diretor clínico do hospital, a que a agência Lusa teve acesso, os médicos apontam «a degradação contínua das condições de trabalho no Serviço de Urgência, quer em termos de falta de material, quer em termos de falta de pessoal».

«Desconformidades sistemáticas da escala de urgência, nomeadamente do Atendimento Geral e do Atendimento Pediátrico», são também anomalias indicadas pelos clínicos, que consideram que «a degradação põe em risco a segurança dos doentes que recorrem ao Serviço de Urgência».

«Apesar de ter havido orientações da tutela para o reforço das equipas de urgência para o cumprimento do Plano de Inverno 2015, e de ter havido reuniões internas ao abrigo desse mesmo plano, não só não se verificou o reforço das equipas, como continuam a ser sistemáticas as desconformidades da escala de urgência, sendo frequente existir um só elemento escalado para o Atendimento Geral durante o dia e durante a noite.»


Segundo os responsáveis, com a passagem da Unidade de Cuidados Paliativos para a Rede Nacional de Cuidados Continuados, vai reduzir-se a capacidade de internamento do HLA, que está integrado na Unidade Local de Saúde do Litoral Alentejano (ULSLA), agravando a «capacidade de escoamento do Serviço de Urgência».

«O conselho de administração, no âmbito das suas competências, tomou decisões sobre a contratação externa de médicos para o Serviço de Urgência, sem ouvir ou levar em consideração a opinião dos responsáveis intermédios», afirmam.


Os clínicos defendem que tais decisões levaram às «desconformidades» nas escalas de urgência e acusam o conselho de administração da ULSLA de não se ter mostrado «realmente interessado em discutir a problemática».

Indicam ainda ações que levaram a cabo para chamar a atenção para o problema, como a elaboração de um documento no qual «definiram as condições mínimas de pessoal que consideravam necessárias para garantir a segurança e qualidade no atendimento aos doentes», que entregaram à administração no final de novembro do ano passado.

Os clínicos referem que «têm assumido» a chefia de equipa, «porque muitos deles nunca foram nomeados», «delegando» agora essa responsabilidade no diretor clínico, Mário Moreira, ao qual compete a responsabilidade da escala do atendimento da Urgência, uma vez que não existe um diretor neste serviço.

Conselho de Administração nega acusações

O Conselho de Administração já reagiu à demissão dos catorze médicos e «recusa a existência de falta de material, bem como a alegada degradação do serviço».

Em comunicado enviado às redações, a administração «considera que existem problemas resultantes, entre outros, da falta de médicos na instituição, o que se reflete no funcionamento do SUMC, mas também nos restantes serviços».

«Ainda hoje o Conselho de Administração da ULSLA efetuou uma reunião com alguns médicos subscritores do abaixo-assinado (...), onde foram avançadas algumas eventuais soluções para melhoria do SUMC», acrescenta o comunicado.

É mais um caso de demissões no setor da saúde com que o Governo se depara. A onda de demissões nos hospitais começou com o Garcia de Orta, em Almada.  Sete chefes do Serviço de Urgências demitiram-se na segunda-feira, dia 26 de janeiro e, no dia seguinte, o presidente do Conselho de Administração do Hospital Garcia de Orta, Daniel Ferro, anunciou esta terça-feira um conjunto de medidas para melhorar o atendimento nas urgências, mas os sete chefes do Serviço de Urgências reafirmam que continuam demissionários, até os problemas do hospital estarem resolvidos.

Seguiram-se os diretores de serviço do Hospital Amadora-Sintra, que se demitiram em bloco. Numa carta enviada ao presidente do conselho de administração daquela unidade de saúde, a 11 de fevereiro, e a que a TVI teve acesso, constam 27 assinaturas. 

O diretor do Hospital Santa Maria, em Lisboa, Miguel Oliveira e Silva demitiu-se apenas três meses depois de ter assumido o cargo. A razão oficial apresentada prende-se com questões académicas, mas um clima de tensão interno estará na origem da decisão. 

A 19 de fevereiro, a presidente da Associação Portuguesa dos Administradores Hospitalares (APAH) disse esperar que a demissão de diretores nos hospitais não se transforme numa nova forma de gestão hospitalar e não se torne viral.