Os pais da jovem de 18 anos que morreu há três anos num quartel de Gaia durante o Dia da Defesa Nacional lamentam que o julgamento dos militares acusados ainda não tenha começado e responsabilizam o Estado pelo sucedido.

«A minha filha morreu há três anos e está tudo como se nada tivesse acontecido», criticou Marco Lucas, pai de Ana Rita, que a 20 de maio de 2011 caiu de uma altura de cinco a sete metros quando fazia um exercício radical de slide no Regimento da Serra do Pilar, em Gaia, no âmbito das atividades do Dia da Defesa Nacional.

A comemoração do Dia da Defesa Nacional, que prevê a convocação de jovens com 18 anos, estava prevista numa lei aprovada em 1999, mas só em 2003 o então ministro da Defesa, Paulo Portas, decidiu avançar com a iniciativa de caráter obrigatório.

Ana Rita Lucas, que «estava a tirar o curso de Direito para ser procuradora» e não quis faltar às comemorações para «não ser prejudicada», ainda foi transportada após a queda ao Hospital de Santo António, no Porto, mas não resistiu aos ferimentos.

«Na nossa perspetiva, criou-se um dia de Defesa Nacional sem sequer se ter o cuidado de perceber se havia condições para que os miúdos pudessem participar com a devida segurança. Logo, há que imputar a responsabilidade a quem o criou, que foi o Estado, através de Paulo Portas», atirou Marco Lucas em declarações à Lusa.

Três anos volvidos, os pais da jovem continuam à espera que se apurem as responsabilidades pelo sucedido e que arranque o julgamento que chegou a estar marcado para abril de 2013, mas que acabou suspenso pela falta de uma peritagem pedida por um dos militares acusados de homicídio por negligência grosseira.

Em outubro de 2012, o Ministério Público (MP) acusou quatro militares (um sargento, um primeiro cabo e dois soldados) envolvidos na montagem e vigilância do equipamento de slide pela morte da jovem, considerando que a queda fatal ocorreu por desleixo dos mesmos.

Um dos arguidos acabou porém por pedir uma peritagem ao cabo usado na atividade de slide, para averiguar o motivo da sua alegada rutura, mas só em abril deste ano o LNEC (Laboratório Nacional de Engenharia Civil) aceitou efetuar a mesma, isto depois de três universidades (Aveiro, Coimbra e Porto) terem rejeitado fazê-lo ainda em 2013.

«As coisas estão sempre empatadas», lamentou o pai da jovem que, queixando-se de «falta de profissionalismo» quer do tribunal quer dos vários peritos solicitados, espera que o resultado do LNEC chegue até ao dia 15 de junho (data estipulada) para que possa mais uma vez ser marcado o início do julgamento.

Ainda que na altura do acidente o Exército tenha expressado à família o seu «profundo pesar» pelo sucedido, e anunciado a abertura de um inquérito, «nunca mais» contactou os pais da jovem, assinalou Marco Lucas para quem também «o estado não quer saber de nada».

Este ano a 10ª edição do Dia da Defesa Nacional começou no dia 20 de janeiro com cerca de 650 jovens nascidos em 1995 em cinco unidades militares.