Adalberto Campos Fernandes considera que é fundamental “devolver o SNS aos portugueses”. E isso só se consegue promovendo o acesso, disse o professor da Escola Nacional de Saúde Pública, no debate A Caminho das Legislativas, da TVI24, que esta quinta-feira se centrou nas questões de saúde.
 

“A questão central, hoje em dia, em Portugal, é uma questão de acesso. E não é de acesso caro. É de acesso barato. É de acesso a falar com um profissional de saúde junto do local onde se trabalha, onde se vive, onde as pessoas estão. Se nós conseguirmos recentrar a questão do acesso e eliminar as consequências do desinvestimento no setor, conseguiremos iniciar um processo de devolução do SNS aos portugueses”, disse Adalberto Campos Fernandes.

 
O especialista sublinhou ainda que “considerar que o Sistema Nacional de Saúde poderia responder da mesma forma que poderia responder numa situação de desafogo financeiro, ignorando as consequências sobre a pobreza, a quebra do rendimento, a exclusão social, a pobreza infantil (…) é não ter percebido o país, não ter percebido a realidade.”

Adalberto Campos Fernandes, professor da Escola Nacional de Saúde Pública, no debate da TVI24 (clique para ver o vídeo)
 
Os três especialistas presentes no debate organizado pela TVI24 concordam que houve um desinvestimento na componente humana do Sistema Nacional de Saúde (SNS), sobretudo no que toca aos cuidados primários. Mas, ao contrário do que se possa pensar, o problema da falta de médicos de família, por exemplo, é mais grave nos grandes centros urbanos.
 

No interior não há falta de médicos de família. Há falta de médicos de família aqui em Lisboa, na ARS Lisboa e Vale do Tejo. É de facto grave: há 30 e tal por cento de utentes sem médico de família”, considerou Eduardo Mendes, médico de família.

 
Maria do Céu Machado, diretora do serviço de Pediatria do Hospital de Santa Maria, lamentou que a crise não tenha sido aproveitada: “É uma pena que não se tenha aproveitado esta crise como oportunidade para se fazer uma reforma que se podia e devia ter feito.”
 
A responsável deixou ainda um alerta: “Nós estamos todos a trabalhar nos limites. Consegue-se aguentar se não houver uma epidemia de gripe, se não houver legionella.”
 

“Se houver qualquer alteração no estado de saúde dos portugueses, seja epidémica, seja catastrófica, como estamos a trabalhar nos limites, imediatamente os serviços falham todos”, acrescentou.

 
Maria do Céu Machado considera que o sistema público poderia aproveitar, de uma forma mais eficiente, as potencialidades do setor privado, “através de convenções, por exemplo”. “O público e o privado não podem ser aqui uma espécie de Benfica – Sporting”, disse.
 
Adalberto Campos Fernandes considerou que “ o modelo de financiamento está envelhecido”. “Continuamos a pagar os hospitais não só por episódios de urgência que não deviam ser eles a fazê-los, mas também por manterem os doentes em consultas subsequentes eternizados em hospitais de fim de linha. Faz algum sentido que um doente com hipertensão controlada ou com diabetes controlada continue a ser seguido numa consulta de especialidade no hospital de santa maria, quando podia sê-lo com mais segurança e com mais qualidade e menos custos ser transferido para o seu médico de família?”, questionou.