As células dendríticas foram um negócio que entrou em decadência, pois os pais das crianças com cancro deixaram de falar nelas, embora continuem a levar para os consultórios o “dr. google”, afirmou o diretor da pediatria no IPO do Porto.

Armando Pinto falava durante o Fórum “Cancro Pediátrico”, organizado pela associação Lions e que esta quarta-feira reúne, em Lisboa, vários especialistas em oncologia pediátrica.

Para o diretor do serviço de pediatria do Instituto Português de Oncologia, faz parte do dia a dia dos médicos que atendem crianças com cancro responder a dúvidas dos pais sobre as terapias alternativas.

“O dr. google entra todos os dias nos nossos serviços e consultórios. O que eu tento explicar é que algumas dessas terapias são puramente experimentais e, embora não seja contra as experiências, elas não passam disso."

Há alguns anos, muitos foram os pais de crianças com cancro que questionaram a eficácia das células dendríticas - que atuam ao nível do sistema imunitário e são usadas em tratamentos ainda experimentais - sobre as quais existia um aceso debate nas redes sociais, mas o assunto “saiu de cena”.

“Inicialmente foi uma experiência e depois transformou-se num negócio rentável que está a entrar em decadência. Saiu de cena, pois os pais deixaram de falar nele”, adiantou Armando Pinto.

Este médico recordou que o IPO do Porto está ligado em rede aos outros centros europeus e que às crianças e aos seus pais é sempre proposto o tratamento considerado mais adequado.

Nesta escolha não são feitas contas, conforme afirmou Armando Pinto: “Tratamos os doentes e não pensamos em contas”, disse.

Em relação a esta área da medicina, o especialista partilhou com a audiência que é muitas vezes questionado sobre como consegue tratar estes doentes, tão novos.

“Aos doentes é que deve ser perguntado como aguentam as doenças. Os médicos são uns privilegiados porque podem ajudar os doentes e fazer qualquer coisa para mudar o mundo."

Ao serviço de pediatria do IPO do Porto chegam todos os anos 100 novos casos, o que representa um por cento dos 10.000 novos doentes que a instituição trata.

“Somos os senhores um por cento do IPO do Porto”, ironizou, recordando que, apesar de todos os profissionais de saúde reconhecerem a importância de as crianças serem tratadas o melhor possível, estes são os primeiros a recusar fazê-lo, alegando tratar-se de casos para a pediatria.

Neste serviço, um novo caso é tratado como um incêndio: “Todos os canais têm de ser ativados e depressa. Os pediatras têm pressa”, disse, referindo-se ao facto de a maioria das doenças oncológicas serem de crescimento rápido nas crianças.

Em Portugal surge uma nova criança com cancro todos os dias.

Na Europa, todos os anos são registados 35.000 novos casos de cancro em crianças e jovens até aos 24 anos.