Tudo começou com um artigo de Duarte Marques, no Expresso, a comparar o cenário macroeconómico do PS com o programa de estabilidade do Governo. O deputado do PSD citou Pedro Cosme Vieira, professor de economia da Universidade do Porto, para argumentar, como ele, que o que os socialistas fazem na sua proposta é "recuperar o Excel de [Vítor] Gaspar" . A polémica estalou aí. Como, se em causa estava um artigo a pensar nas legislativas? O que é que isso tem a ver com "pretalhada" e racismo?

É que Francisco Louçã, ex-líder do Bloco de Esquerda, foi ver quem era e o que defendia o economista Pedro Cosme Vieira. Encontrou, no mesmo artigo que serviu de fonte a Duarte Marques, afirmações racistas do professor universitário. Cosme Vieira sugere, por exemplo, o seguinte:

"Para aumentar o número de contribuintes, é preciso desviar os barcos com a pretalhada que atravessam o Mediterrâneo para o Algarve” e que essa “pretalhada” devia ser “abatida a tiro”

A solução para “diminuir o número de pensionistas é matá-las”

 
(Pedro Cosme Vieira - Faculdade de Economia da Universidade do Porto)


O nome do professor da Faculdade de Economia do Porto foi lançado para a ribalta mediática, sem o próprio ter mexido uma palha. As redes sociais e os blogues agitaram-se nas críticas, com ou sem humor à mistura. O professor universitário “mais odiado em Portugal” chegou mesmo a ter estas honras de manchete no jornal “i” desta terça-feira.
 
 
E, lá está, tudo começou com um artigo de Duarte Marques sobre um assunto completamente diferente:

“Tal como lembra o Professor Pedro Cosme Vieira da Faculdade de Economia do Porto o documento recupera o "Excel" de Vítor Gaspar, que o PS tanto criticou, fazendo tábua rasa das intervenções de alguns dirigentes socialistas como João Galamba ou Vieira da Silva”.

 
                         ( Duarte Marques, deputado do PSD [Foto: Facebook] )
 


Francisco Louçã foi espreitar o blogue de Cosme Vieira


O artigo do deputado do PSD mereceu um artigo de opinião assinado por Francisco Louçã, no Público, inteiramente dedicado ao assunto “Duarte Marques e o amigo que afunda os barcos da pretalhada”:

“Parece um pouco ligeiro, o nosso engenheiro. Desviar os barcos com pretalhada” e matar os pensionistas? Aqui está uma ideia que só pode ocorrer a mente brilhante.”. “Só posso agradecer a Duarte Marques ter-me conduzido a esta autoridade que o inspira e conforta”

 
                                                              ( Francisco Louçã [arquivo] )

Duarte Marques defendeu-se no espaço de comentários online ao artigo de opinião de Louçã, dizendo que apenas citou um “simples parágrafo de um post muito divulgado nos últimos dias”.

Cosme Vieira é um “autor que de todo desconheço e que jamais tinha lido”. Francisco Louçã está a fazer um “desonesto exercício de manipulação e demagogia”.  


Demarcou-se, também, dos “disparates” de “índole claramente racista” do professor que citou no seu artigo.

O ex-líder do Bloco de Esquerda respondeu-lhe, lembrando que “esses disparates também estavam no texto que citou como autoridade na matéria”.


Blogues agitam-se 


Na blogosfera, Cosme Vieira, Duarte Marques e Francisco Louçã passaram a ser uma troika muito citada na última semana . 

O blogue Aventar, um dos mais lidos em Portugal, vaticina: “É a cola. A cola dos cartazes.  Os vapores da cola dos cartazes que se fixam enquanto tenro jota [Duarte Marques] e que deixam danos irrecuperáveis.”

Isso foi a 28 de abril. O próprio Cosme Vieira assumiu logo no dia a seguir, no seu blogue Económico-Financeiro e também na caixa de comentários ao artigo de Louçã:  "Eu sou racista ". E sem qualquer pudor:

“Mas o mais grave é que não sou o único”. “Ser racista e ser inteligente são as duas faces da mesma moeda"


Quanto a Louçã, o professor atira: "E o que propõe o Camarada Louçã? Nada. É o que se chama um orador sofista, fala, fala, fala, fala, tudo muito inflamado, mas não sai nada"

O mesmo blogue Aventar caiu em cima de Cosme Vieira, recordando, entre outras coisas, que recentemente se candidatou a diretor da Faculdade de Economia do Porto e que recolheu "zero votos". “Deve ser uma doença qualquer”, relativiza, com ironia, o próprio Cosme Vieira sobre o assunto ao jornal “i”.

Já outro blogue muito concorrido em Portugal, o Blasfémias, atacou Francisco Louçã, escrevendo que “o senhor se indignou com uma redução ao absurdo [de Pedro Cosme Vieira], talvez por falta de espelhos em casa, talvez por brilhantismo que só o próprio está em condições de reconhecer”.


Twitter e a ironia na hora de criticar


Pela pesquisa no Twitter, o tom é bem mais de crítica do que defesa a Pedro Cosme Vieira. Mesmo quando há humor ou sarcasmo à mistura:
 
 
 
 
 
 

Cosme Vieira não parece incomodado com o(s) dedo(s) que lhe apontam. Não toma nada como pessoal, encara as críticas como sendo dirigidas à “personagem do mundo virtual” do seu blogue Económico-financeiro, onde escreve regularmente sobre economia e não só, com recurso a imagens surpreendentes para ilustrar os seus textos. 

Outra das suas teorias que ali espelhou foi sobre o vírus da sida:

“Se se fizesse o abate sanitário de todos os infetados” com SIDA, “a doença desapareceria da face da Terra, recuperando-se em apenas 15 anos os 35 milhões de pessoas abatidas”.

 
O Tubo de Ensaio de Bruno Nogueira e João Quadros, na TSF, dedicou-lhe uma das rubricas da semana passada, carregando na crítica satírica: “Um ataque de cosme”. Nada que tenha retraído o professor universitário, que continua fiel a si próprio, no blogue:

“Enquanto o Louçã perdeu tempo a dar-me fama e o Bruno Nogueira a ler uma crónica (que me tornou ainda mais famoso) alegadamente humorística mas que não deve ter arrancado um sorriso a ninguém, mais milhares de alienígenas (não posso mais dizer -pi-alhada) deram às costas europeias. Só ontem, Sábado, foram mais de 3400”.


Hoje, terça-feira, a propósito da primeira página do "i", o assunto voltou a ganhar destaque. Pela defesa de Cosme Vieira, feita pelo próprio, e também porque foi publicado no Expresso novo artigo de opinião de Duarte Marques. Com o título: "Diz que disse - o método Trotskã", o deputado social-democrata critica as palavras que Francisco Louçã lhe dedicou no "Público" na semana passada:

"O que Francisco Louçã fez na semana passada nas páginas do Público é demasiado grave. É um exercício desonesto, desleal,  uma verdadeira manobra covarde de quem não tem mais argumentos para esgrimir. Podem chamar-me tudo, mas associarem-me a 'racismo', é intolerável.", atirou.