A adesão a provas como as meia e mini maratonas de Lisboa, que este ano voltaram a bater recordes de inscrições, continuará a crescer em Portugal, sobretudo entre as mulheres, acreditam responsáveis pelas principais empresas organizadoras de provas.

Em declarações à agência Lusa, o presidente do Maratona Clube de Portugal, Carlos Móia, considerou que o fenómeno do running «não é moda», «é hoje prática corrente» e tenderá a aumentar, sendo praticado atualmente por apenas 17 dos 30 por cento dos portugueses que praticam desporto – «ainda é baixíssimo e vai crescer muito», frisou.

«Com o tempo, começou a haver uma cultura desportiva que não havia em Portugal. Quando foi feita a primeira meia maratona, com 3.900 pessoas, havia 100 mulheres, hoje é quase 50/50. Toda esta cultura desportiva veio a crescer, mas ainda é mínima, representa 17 por cento de 30 por cento do que se pratica de desporto em Portugal. Portanto, o crescimento vai ser muito, muito maior», apontou.


Para Carlos Móia, o running impôs-se pelo facto de a corrida ser «prática», «por causa da questão da saúde» ou por aspetos como a própria auto-estima do praticante.

«É um desporto prático, se não pode fazer de manhã faz à tarde, se não pode fazer à tarde faz à noite. Muita gente se despe dentro de um carro, para à beira do Tejo. É relativamente barato, não tem de ter parceiro, pode fazer sozinho (…) quando se vai ao médico, o médico pergunta: pratica desporto? E quando se vai embora o médico aconselha a praticar desporto», disse.


O presidente do Maratona Clube de Portugal previu que, no futuro, que a um aumento do nível de participação nas provas corresponderá uma diminuição do «nível de competitividade», que é ainda bastante alto.

«Em Portugal ainda há muito espírito competitivo. Sei isso porque organizo. Lá fora é participar por participar. Penso que a tendência será essa. Ainda há muita gente que participa sempre com um espírito competitivo. Vai baixar esse espírito e ser substituído pela parte lúdica», comentou, apontando ainda os «limites físicos» e «logísticos» ao crescimento das provas.


«Na maratona de Londres inscrevem-se 160 mil ou 180 mil pessoas, mas só participam 35 mil, porque não cabem nas estradas. Aqui ultrapassávamos [os números atuais], mas não há estrada que comporte mais gente, nem a ponte», disse.

Também Hugo Sousa, da empresa HMS Sports, antevê um crescimento na adesão ao running, em linha com o que tem sucedido com os países com os quais Portugal se compara.

«Há um boom gigante de crescimento da corrida e não é apenas em Portugal, é no mundo inteiro. É um fenómeno que já acontece lá fora há muitos anos e felizmente está a chegar a Portugal. Lá fora, nalguns países ainda continua a crescer, por isso, Portugal ainda tem muito para crescer, principalmente no setor feminino. Em muitos países não foi uma moda passageira, as pessoas mudaram os hábitos e passaram a ter um estilo de vida mais saudável. Isto é um fenómeno mundial e não português. Ainda nem a meio chegámos», afirmou.


Contudo, o responsável da HMS Sports, que organiza a corrida São Silvestre, prevê que o mercado se irá tornar «mais seletivo».

«Vão aparecer imensos eventos, muitos vão acabar rapidamente e os bons vão crescer. A lei do mercado é mesmo assim. A quantidade de eventos que existe não é possível. Em 2014 já houve várias corridas que tiveram menos participantes do que no ano anterior. Isto porque há muitas corridas por fim de semana, a bolsa não estica, as pessoas não conseguem ir a todas e têm que se fazer opções e naturalmente vão escolher os eventos que mais lhes agradam, os melhores, os mais bem organizados», apontou.


Miguel Mota, da empresa OFF crono, admitiu que o running possa ter crescido por moda, mas também motivado pela «preocupação das pessoas em estarem melhor com o corpo» e de quererem «superar-se e chegar a algum objetivo».

«Veio um bocado para ficar. É capaz de abrandar um bocado o crescimento, mas veio para ficar, estou convicto que sim. Noto também que muita gente aderiu à corrida, porque é um desporto barato, comparando com os ginásios, por exemplo», advogou.


A popularidade crescente do running surpreendeu também José Abreu, da empresa Xistarca, antigo atleta e dirigente desportivo.

«O número de corridas continua a aumentar, contrariando aquilo que eu há uns meses pensava (…) Nós estávamos ligados a cerca de 50 eventos há dois anos, em 2013 70, em 2014 78. O número de corridas tem aumentado 15 a 20 por cento por ano. E um aumento substancial dos trails. Recebo propostas de orçamento para 30 a 40 trails e já nem respondo à maioria, porque não tenho capacidade para isso», ilustrou.


No entender de José Abreu, «a corrida veio para ficar»: «A moda é organizar provas».

«Organizar corridas continua um pouco na moda. Participar nas corridas, o cidadão participar já é cultural, já faz parte. Qual é a explicação para isto? Muitas das pessoas que vão à corrida, das caminhadas e até da corrida são pessoas, aqueles que já não têm capacidade para correr 10 km, vão participar. E é uma maneira de criar diálogos, de criar novas amizades, é um desporto em que não há contacto físico e portanto é atrativo. Não há ali nada que ponha em causa a personalidade, o gostar de falar ou não falar, não levam um empurrão, não há asneiras», defendeu.