Por: Redacção / ARC | 21- 9- 2008 15: 34
Correia de Campos reconhece, num livro que chega segunda-feira às bancas, que a criação de novas taxas moderadoras não
visou moderar o acesso, como na altura justificou, mas preparar a opinião pública para uma alteração do financiamento do sistema.
No livro «Reformas da Saúde - o fio condutor», o antecessor da actual ministra Ana Jorge enaltece o trabalho desenvolvido
no sector durante o seu mandato, fugindo a algumas polémicas ainda actuais e suavizando as controvérsias que rodearam medidas
como o encerramento dos blocos de parto ou das urgências, estas últimas politicamente associadas à sua substituição.
A
criação de novas taxas moderadoras foi, sem dúvida, uma das mais polémicas medidas anunciadas há precisamente dois anos pelo
então ministro da Saúde, numa entrevista à Agência Lusa.
António Correia de Campos anunciou nessa entrevista que
o Governo estava a ponderar a criação de taxas moderadoras para o internamento e o ambulatório, serviços que até então eram
gratuitos para os utentes do Serviço Nacional de Saúde (SNS).
O ex-ministro justificou, na altura, a criação destas
novas taxas - que viriam a ser de cinco euros por dia de internamento até a um máximo de dez dias e de dez euros por cada
acto cirúrgico realizado em ambulatório - com o efeito moderador do acesso.
Correia de Campos recusou a ideia desta
medida visar o financiamento do sistema, lembrando que «este tipo de receitas é mínimo».
Preparar a opinião pública
No
seu livro, publicado pelas edições Almedina, António Correia de Campos revela que, afinal, a criação destas novas taxas não
teve nenhuma destas duas justificações. «A razão mais importante para o alargamento das taxas moderadoras ao internamento
e à cirurgia do ambulatório não foi nem o objectivo moderador, nem o objectivo financiador, mas sim uma preparação da opinião
pública para a eventualidade de todo o sistema de financiamento ter de ser alterado, caso as medidas de boa gestão que tínhamos
adoptado no SNS não se revelassem suficientes para garantir a sustentabilidade financeira do sistema», escreve o ex-ministro.
António
Correia de Campos recorda neste livro as preocupações que teve com o financiamento do Serviço Nacional de Saúde e reconhece
que a sua fórmula foi equacionada ao longo de 2006.
«Ao longo de 2006, o facto de a dotação orçamental do SNS ter
sido a mesma de 2005 em termos nominais, levantava constantes preocupações sobre a sustentabilidade financeira do SNS», escreve.
«Não foi tarefa fácil»
Ao longo de 310 páginas, António Correia de Campos aborda, sem desenvolver, algumas
questões polémicas, como os acordos que hospitais privados estabeleceram com a ADSE - entretanto criticados pela sua sucessora,
Ana Jorge.
«Esta questão tem assumido fortes contornos ideológicos e o debate está apenas a começar. Daí a necessidade
de o clarificar, evitando ambiguidades, mal-entendidos e preconceitos», escreve.
Sobre o fecho de blocos de partos
e de urgências, o ex-ministro socialista minimiza o estrondo que as medidas causaram na altura, resumindo-as a «decisões difíceis,
impopulares, mas necessárias».
«Concentrar maternidades, requalificar serviços de urgência em locais previamente
seleccionados e encerrar Serviços de Atendimento Permanente (SAP) no período nocturno, em troca da abertura de novas Unidades
de Saúde Familiar (USF) não foi tarefa fácil», confessa.
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