Trezentos casais vão beijar-se, durante o jogo Benfica-Gil Vicente, no Estádio da Luz, no próximo domingo, concretizando uma das iniciativas da campanha de alerta que a Associação de Mulheres Contra a Violência (AMCV) apresentou hoje, em Lisboa.

«Esquecer a primeira agressão é tão difícil como esquecer o primeiro beijo» é o lema da iniciativa que tem por objetivo alertar a sociedade civil para a necessidade de se envolver no combate à violência doméstica, à violência de género e sexual.

Portugal avançou muito nos últimos anos, no que respeita a legislação, lembrou a fundadora e dirigente da AMCV, Margarida Medina Martins, mas «as mulheres continuam a ser mortas», alertou, facto que atribuiu ao «pouco controlo e pouca penalização» dos agressores, como declarou na conferência de imprensa de apresentação da campanha.

Em 2012, 37 mulheres morreram, em contexto de violência doméstica, em Portugal, lembrou a responsável.

Com o objetivo de mobilizar participantes para a ação do próximo domingo, no Estádio da Luz, quando o Benfica defrontar o Gil Vicente, foi lançado, na quarta-feira, um desafio no Facebook, que, hoje de manhã, já contava com a adesão 125 casais, segundo Tomás Frade, responsável pela agência que está a colaborar com a campanha.

A ação tem por objetivo conseguir, pelo menos, a adesão de trezentos casais, número que permite encher um setor do estádio (600 pessoas).

A ação conta também com o apoio do Benfica, por se tratar de uma «causa nobre» que o clube, através da sua fundação, também defende, observou o diretor da marca Benfica, Henrique Conceição.

A campanha assinala os 20 anos da AMCV, não vai esquecer as mortes verificadas em Portugal, em contexto de violência doméstica, e tem também por objetivo angariar fundos para a associação.

Margarida Medina Martins disse que o organismo - uma organização não-governamental sem fins lucrativos - necessita, neste momento, de dez mil euros por mês, para continuar a desenvolver atividade.

A campanha disponibiliza, por isso, um número para mensagens "sms" (61966) e um número de telefone (760207040), para angariação de fundos, custando cada chamada telefónica 0,60 euros mais IVA.

A dirigente da AMCV, no balanço dos 20 anos de atividade, destacou que, em 2012, a associação atendeu 9.135 pessoas, numa média mensal de 192 utentes, o que representa mais de seis pessoas por dia. No mesmo ano, foram detetadas 669 novas situações de violência, 270 das quais sobre mulheres e 399, relativas a crianças.

A responsável apresentou como prioridade a constituição de um grupo de pressão («lobby»), alargado à violência sexual, recordando que, em Portugal, não há um trabalho regular relativo ao abuso sexual, incesto, violação e violência de grupo contra as mulheres e crianças.

«A violência contra as mulheres não tem tido visibilidade em Portugal, exceto situações institucionais, como a Casa Pia e outros colégios de rapazes», disse a responsável da AMCV.

A responsabilização dos agressores, dos profissionais e a obrigatoriedade de formação e especialização nesta área de intervenção são, segundo Margarida Medina Martins, outras das prioridades.

A dirigente da AMCV defendeu ainda «uma necessidade de mudança no mundo judiciário", por considerar que "os processos de violência têm de ser vistos de forma integrada».

«É preciso integrar o modelo de combate e lutar contra o problema», afirmou Margarida Medina Martins. A responsável exemplificou com a necessidade de a queixa-crime contra o agressor não poder estar desligada do processo familiar, da regulação do poder paternal e da proteção de menores.

Quando uma mulher ou uma criança estão «no vermelho» estão no «vermelho», sempre em todas e cada uma destas áreas, concluiu.