Uma investigadora da Faculdade de Engenharia do Porto está a estudar a possibilidade de usar os resíduos de construção e demolição na fabricação do betão, permitindo que restos de paredes, muros e vigas deem origem a novos edifícios.

“Parte do cimento pode ser substituída por resíduos de construção e demolição. Estou a ter bons resultados”, explicou Joana Sousa Coutinho, professora na Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto que em 2010 recebeu fundos comunitários para encontrar um betão mais amigo do ambiente.


Na altura enveredou pelos resíduos de biomassa, folhas de azeitona e canganhos de exploração vínica, tentando substituir parte do cimento por estes materiais, mas os estudos revelaram que os melhores resultados eram conseguidos com resíduos de vidro reduzidos a pó.

Essa investigação, apoiada durante três anos e meio por fundos COMPETE, teve por base a preocupação com a sustentabilidade já que “o betão é o material mais usado no mundo, a seguir à água”, chegando a ser produzido “cerca de um metro cúbico por pessoa por ano”.

“Eu dou aulas nesta área, isto preocupa-me muito e quero passar aos meus estudantes esta preocupação. Já existem muitos materiais para substituir parcialmente o cimento, e alguns até são resíduos como a sílica de fumo, e por que não estudar outros materiais?”, assinalou a investigadora.


A professora defende que “para tornar a indústria de construção mais verde é necessário praticar a ecologia industrial e investigar a aplicação de resíduos e subprodutos com potencial aplicação sobretudo em betão, o material de construção mais usado no mundo”.

Depois do vidro, há cerca de 10 meses que Joana Sousa Coutinho dedicou-se a explorar os resíduos de construção e demolição, ou seja, a usar o cimento hidratado, a pedra, a brita, o tijolo e as próprias paredes demolidas para o betão de casas novas.

“Os resíduos de construção e demolição (RCD) são uma fonte viável de agregado mas ainda pouco utilizados sobretudo devido ao baixo custo relativo dos agregados naturais, falta de incentivos e por poderem conter impurezas que possam prejudicar o desempenho do betão”, explica, num dos estudos já apresentados na faculdade.


Em Portugal, conta a docente, já existe legislação sobre o aproveitamento dos materiais de demolição e construção que são “triturados e transformados em novo agregado para betão novo”, pelo que optou por “usar o material mais fino e que muitas vezes não se utiliza” – areia com um tamanho inferior a 10 milímetros – e que é enviado para aterro.

“Se eu pegar nessa parte e moer muito fininho, as conclusões a que se tem chegado é que se pode reaproveitar e substituir parcialmente o cimento”, realçou a investigadora que espera continuar por mais 10 meses o trabalho em busca de um betão mais verde.