Partem com a promessa de ganhar 3.400 euros e acabam por receber 700, dos quais têm de pagar a comida e alojamento. O caso é um dos exemplos revelado esta terça-feira pelo Sindicato da Construção de Portugal e estará a passar-se na Alemanha, com cerca de 2.000 trabalhadores portugueses.

No Porto, em conferência de imprensa, Albano Ribeiro, que preside ao sindicato, reclamou a intervenção do Governo português no que chamou “casos de escravatura” sobre operários portugueses da construção civil no estrangeiro.

Quanto mais se agrava a situação de crise na construção civil em Portugal mais problemas está a haver com trabalhadores que vão para fora do país. Acho que o Governo português tem que interceder”, afirmou o sindicalista.

Na Dinamarca, segundo o sindicalista, está em causa a situação dos trabalhadores afetos à obra de extensão da rede de metro de Copenhaga. A empresa dinamarquesa de construção CNBT DK ApS foi recentemente condenada ao pagamento de 19 milhões de coroas dinamarquesas (cerca de 2,5 milhões de euros) em indemnizações, por irregularidades nos pagamentos e nos horários laborais.

Os trabalhadores portugueses no metro da Dinamarca receberam 2,5 milhões de euros de indemnizações, mas há mais problemas para resolver. Há associados nossos que dizem que trabalham 56 a 62 horas por semana, contra as 37 horas que tinham que trabalhar, e não ganham o mesmo salário dos trabalhadores dinamarqueses”, afirmou Albano Ribeiro.

Adiantando ter já solicitado uma reunião à federação sindical 3F, a maior da Dinamarca e que esteve envolvida nas negociações com a CNBT DK ApS, o sindicalista diz pretender deslocar-se aquele país “para contactar com os trabalhadores no terreno”.

Histórias das Arábias

Outro caso revelado pelo sindicalista dá conta do "inferno” em que diz estarem a viver 80 trabalhadores portugueses da construção na Arábia Saudita. Vive-se uma situação de salários em atraso que afeta cerca de 30.000 trabalhadores estrangeiros do setor naquele país.

Há trabalhadores portugueses que têm 10 meses de salários em atraso. Dizem que estão presos no inferno, que ninguém lhes resolve o problema e pediram ajuda ao sindicato. Hoje mesmo vamos tentar entrar em contacto com organizações locais para ver da possibilidade de fazer uma deslocação lá e vamos solicitar uma reunião urgente ao secretário de Estado das Comunidades”, disse.

O sindicalista denuncia também a dualidade de critérios que envolve os operários a trabalhar na Dinamarca. Segundo afiança, 260 trabalhadores franceses afetados pela situação na Arábia Saudita já viram o seu problema “ultrapassado porque houve uma intervenção por parte do Governo francês, apesar de ganharem duas vezes mais do que os portugueses”.

Será que é por sermos um país pequeno que não nos resolvem o problema?”, questionou.

Problemas em França e Alemanha

Os problemas dos trabalhadores portugueses do setor da construção estendem-se também ao Sul de França, onde “uma grande obra com mais de 100 trabalhadores foi embargada pelas autoridades porque não estavam a cumprir em matéria salarial, de alimentação e de alojamento”.

Apesar da intervenção das autoridades dos países onde há portugueses a trabalhar na construção civil, o presidente do sindicato considera que nem assim os problemas ficam integralmente solucionados. Até por haver falsas promessas, como, segundo contou, ocorre na Alemanha.

Cerca de 2.000 trabalhadores portugueses estão numa situação de escravatura contemporânea: São angariados em Portugal com a promessa que vão ganhar 3.400 euros e, depois, estão a ganhar 700 euros por mês e pagando alimentação e alojamento”, referiu.