O presidente do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida (CNECV) considera que, antes da crise, os profissionais de saúde andaram «a fingir» que eram ricos e a prescrever medicamentos e exames que «não eram necessários».

«Andávamos a fingir que éramos ricos: utilizávamos o dobro do papel necessário, prescrevíamos medicamentos e análises a mais e repetíamos exames que não eram necessários», disse Miguel Oliveira da Silva, em entrevista à agência Lusa.

Para o presidente do CNECV, «o desperdício nunca é saudável, não é pedagógico, nem educativo», pelo que - considerou -, neste aspeto, «a crise obrigou a uma concentração no que é essencial».

A propósito da «abundância» dos tempos que antecederam a crise, Miguel Oliveira da Silva não tem dúvidas sobre quem mais lucrava: «A indústria farmacêutica, que crescia a dois dígitos, os diretores de marketing, que eram repreendidos se não cresciam pelo menos 10 por cento(hoje já ficam contentes se crescem cinco ou seis), as farmácias, que eram um «negócio da China».

«Havia margens de lucro de medicamentos absolutamente disparatadas», disse.

«Não estou a dizer que a crise é boa. O que digo é que, na saúde, houve aspetos que nos obrigaram a pensar no essencial e a estabelecer uma hierarquia de valores, de uma forma mais correta», adiantou.

Sobre o impacto da crise, o presidente do CNECV considera que existe hoje, nos serviços de saúde, «uma maior sensibilidade às injustiças e às iniquidades».

Segundo Miguel Oliveira da Silva, «além de casos indiscutíveis, que podem ser motivadas por dificuldades económicas enormes, não se pode dizer que haja pior saúde em Portugal porque estamos em crise».

«Não há nenhum indicador, como a esperança de vida, a mortalidade infantil ou perinatal, que nos diga, de forma insofismável, que estejamos pior».

Para o presidente do CNECV, tal deve-se à «grande qualidade dos profissionais de saúde, à sua perseverança e a um combate importante do desperdício».

Para Miguel Oliveira da Silva, o desperdício não acabou: «Há, há é menos».

«Todos os dias vejo grávidas ou adolescentes que se esqueceram da análise, da ecografia e da receita em casa. Às vezes dizemos para trazer na próxima consulta, outras vezes não».

Este desperdício poderia ser reduzido, na ótica do presidente do CNECV, com a existência de «um registo integrado sobre tudo o que diga respeito às consultas e aos meios de diagnóstico».

«É absurdo que uma jovem venha de um centro de saúde do Hospital de Santa Maria e no hospital eu não tenha acesso ao histórico dela (consulta, história, meios de diagnóstico) e tenha de repetir tudo».

«Hoje em dia é um absurdo que isto não aconteça», disse.

Código de conduta para todos na saúde

Mas o presidente do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida defende também um código de conduta para todos os trabalhadores de instituições de saúde, do administrador ao canalizador, que os obrigue à confidencialidade.

«Trabalhar num hospital ou num centro de saúde - e o ministro da Saúde está atento e em breve deverá sair um conjunto de regras sobre isso - não é a mesma coisa que trabalhar num stand de automóveis ou numa fábrica de bolachas», disse Miguel Oliveira da Silva.

O presidente do CNECV revelou que este organismo vai em breve pronunciar-se sobre o assunto, defendendo, em termos pessoais, a existência de um código de conduta para quem trabalha nas instituições de doente, mesmo onde não há doentes.

Miguel Oliveira da Silva adiantou que há organismos de saúde - como o Infarmed, as administrações regionais de saúde, a Direção Geral da Saúde ou a Inspeção-Geral das Atividades em Saúde - que, apesar de não terem doentes, têm acesso a informação clínica.

«Os problemas éticos não se colocam só com médicos, enfermeiros e farmacêuticos, até porque esses têm, e vão continuar a ter, um código deontológico, mas sim com todas as pessoas que trabalham num hospital», disse.