O presidente do Conselho Nacional de Educação defendeu hoje que é preciso «fazer as contas» para perceber se o ganho que se teria em afetar mais recursos às escolas compensaria as perdas anuais de milhões de euros devido aos chumbos.

«Se é necessário afetar mais meios, é afetar os meios que já existem dentro do sistema e que estão mal aproveitados. Se for preciso adotar ainda mais meios, é preciso fazer as contas para saber se o ganho que se tem compensa a perda que se tem, ou não. Aquilo que andamos a perder todos os anos é muito grave», defendeu hoje o presidente do Conselho Nacional de Educação (CNE), David Justino.

O sistema de ensino português regista uma taxa de chumbos de 35%, o que, de acordo com um estudo centrado na análise do insucesso e abandono escolar, pode custar ao país 250 milhões de euros por ano.

O estudo da Associação EPIS ¿ Empresários Pela Inclusão Social, em parceria com o CESNOVA ¿ Centro de estudos de Sociologia da Universidade Nova, foi hoje apresentado na Escola Secundária Camões, em Lisboa.

Coordenado pelo presidente do CNE, e ex-ministro da Educação, David Justino, o «Atlas da Educação - Desempenho e potencial de sucesso e insucesso escolar por concelho» decorreu entre 2012 e 2013 com o objetivo de analisar, a nível nacional e concelhio, a evolução dos principais indicadores na Educação a partir dos Censos de 1991, 2001 e 2011, focando-se no insucesso e abandono escolar, tendo em conta o contexto socioeconómico dos alunos.

Apesar de admitir que é preciso «fazer as contas», Justino disse também que centrar a questão na falta de meios «é uma forma de não encarar o problema» e disse acreditar que «é possível fazer melhor com os mesmos meios».

Sobre os números de retenções e abandono escolar, o presidente do CNE defendeu, tal como já recomendava o estudo, que «é preciso contrariar a cultura de chumbos», que, frisou, não é «uma ação premeditada», mas sim o resultado de «mecanismos instalados e aceites».

As retenções, continuou o presidente do CNE, são sobretudo inaceitáveis no primeiro ciclo do ensino básico, pedindo um esforço de acompanhamento maior nesta fase, que se revela determinante para o percurso de sucesso ou insucesso dos alunos.

Sobre a necessidade de dar respostas locais, e não nacionais, a problemas de insucesso escolar com origens locais ou regionais, Justino considerou que o projeto-piloto de escolas municipais que o Governo quer implementar no próximo ano «vai nesse sentido», e que, «como experiência, é uma boa experiência, para ver no que dá».

Sobre o alerta que deixou na terça-feira num seminário no CNE, durante o qual referiu que há escolas a «inflacionar propositadamente as suas notas» internas para que os alunos não deixem de entrar nos cursos com médias mais altas, Justino disse apenas: «já tive ecos de que fui ouvido».

No seminário do CNE, o antigo ministro da Educação referiu-se às notas inflacionadas dos alunos do 12.º ano que algumas escolas apresentam, em relação àquilo que são os resultados nos exames nacionais, tendo apelado a uma investigação da Inspeção-Geral de Educação e Ciência (IGEC).

Justino alertou na altura, e na presença do secretário de Estado do Ensino Básico e Secundário, João Grancho, que com estas práticas é a «credibilidade do sistema de exames» que está em causa.

Grancho disse depois, no final da sessão, que o MEC está atento a estas situações, e que a IGEC já acompanha estes casos, que estão também patentes nas listagens dos "rankings" das escolas divulgados todos os anos.