Torres Vedras pode ser exemplo para o país na integração da comunidade cigana, defendeu o comissário de Direitos Humanos do Conselho da Europa, que disse ter encontrado “uma especial combinação de circunstâncias”, desde a determinação da autarquia aos bons líderes ciganos.

Nils Muiznieks esteve de visita a Portugal, cinco anos depois de ter visitado o país pela primeira vez, com o objetivo de ver o que tinha mudado desde 2012, em particular no que à comunidade cigana diz respeito e às políticas específicas de integração.

A ida a Torres Vedras inseriu-se no âmbito das visitas regulares que o comissário dos Direitos Humanos tem vindo a fazer aos 47 Estados-membros do Conselho da Europa, como parte do trabalho de monitorização, tendo já visitado 40 países.

Torres Vedras faz parte do grupo de sete municípios que em Portugal estão incluídos no projeto Romed, do Conselho Europeu, cujo objetivo é formar mediadores ciganos e estimular a organização de Grupos de Ação Comunitária.

Em Torres Vedras, o dia de trabalho começou com reuniões com o presidente da Câmara Municipal, Carlos Bernardes, com os mediadores e restantes representantes da comunidade cigana.

Fiquei bastante impressionado, de forma positiva, pela boa vontade do presidente da Câmara e da autarquia em reconhecer que há um problema que precisa de ser tratado”, adiantou Nils Muiznieks, em entrevista à agência Lusa.

Disse, por outro lado, que “enfatizaram a importância dos mediadores na ajuda à resolução do problema, mas também valorizaram os mediadores como uma forma de promover a participação de baixo para cima”.

Lindo Cambão é mediador neste projeto, cigano nascido e criado em Torres Vedras, escolhido em 2014 por conhecer toda a gente e por toda a gente o conhecer a ele.

No balanço que faz, conta que o seu trabalho como mediador entre a comunidade cigana e a autarquia tem corrido bem e que a Câmara Municipal procura corresponder, sempre que pode, às necessidades da comunidade.

Destaca como pontos positivos a escolaridade, sublinhando que todas as crianças com menos de seis anos andam no pré-escolar e que já há meninas ciganas a estudar até ao 8.º ou 10.º anos.

Tentamos trabalhar pouco a pouco porque não é de um dia para o outro que vamos mudar a mentalidade das pessoas”, disse, acrescentando que o futuro das crianças ciganas já não está na venda nas feiras.

Conseguir arranjar trabalhos também é uma prioridade e as pessoas ciganas recorrem tanto a Lindo que ele às vezes já tem de dizer, a brincar, que não é nenhum centro de emprego, mas mesmo assim as pessoas ciganas pedem ajuda e procuram saber o que é preciso fazer para começar a trabalhar.

Como mediador, Lindo Cambão foi uma das cinco pessoas ciganas entretanto contratadas para trabalhar para a autarquia, estando outras duas a trabalhar na manutenção dos espaços verdes, uma na cozinha e outra como auxiliar educativa.

Os mediadores mostraram fazer um trabalho muito prático e quando perguntei aos restantes membros da comunidade cigana em que é que aquela pessoa os ajudava, eles disseram que ele é a voz deles, que os ajuda a falar com as autoridades locais, a resolver problemas ou a fazer um CV”, contou Nils Muiznieks.

Valentim Vieira, 21 anos, é um dos 10 ciganos que fazem parte do Grupo de Ação Comunitária, um “grupo que apresenta ideias” para dar a conhecer à população em geral os costumes da comunidade cigana local, desde a gastronomia, ao dia-a-dia, fazendo essa demonstração, por exemplo, na feira local que se realiza todos os sábados.

Fizemos um vídeo a mostrar o que era o dia-a-dia do cigano. Fizemos a estreia no Cine-Teatro e correu bem. As pessoas gostaram do vídeo e ficaram a pensar diferente sobre os ciganos”, adiantou.

Nils Muiznieks disse ter ficado muito satisfeito por perceber o papel que teve a cultura no diálogo entre comunidades e na promoção da coesão social, apontando que no mundo dos Direitos Humanos a cultura é pouco usada quando “pode desempenhar um papel importantíssimo”.

No fim, o comissário não teve dúvidas em afirmar que encontrou “uma especial combinação de circunstâncias em Torres Vedras” que se calhar fazem com que não haja outro caso igual, elogiando o facto de ter encontrado “uma abordagem muito inteligente por parte da autarquia”, bem como “uma comunidade cigana que encontrou bons líderes”, capazes de implementar soluções concretas para verem as suas vidas melhoradas.

Isso é uma combinação muito positiva de circunstâncias, que pode não existir noutros sítios, mas parece-me que têm a liderança política, o que é muito importante, que pode servir de exemplo para outros”, defendeu o comissário.

Nils Muiznieks referiu-se assim ao compromisso que disse que a secretária de Estado para a Cidadania e a Igualdade, Catarina Marcelino, assumiu consigo, deixando a “forte garantia” de que está à procura dos fundos financeiros necessários ao prolongamento do programa Romed além da data limite, em dezembro.