A aprovação do referendo sobre a coadoção e adoção de crianças por casais do mesmo sexo provocou reações de condenação por parte de várias associações, que a classificam como «manobra tosca e delatória», «vergonha» ou «um match nulo».

Em declarações à agência Lusa, o presidente da Opus Gay - Associação Obra Gay entende que se trata de um «match nulo».

«Serviu só para adiar este problema até 2016, quando houver eleições gerais em Portugal e é um match nulo porque o PSD saiu bastante enfraquecido, por um lado, porque o seu parceiro de coligação furou o esquema ao abster-se, por outro lado, por ver-se tanto rebuliço na bancada social-democrata», apontou António Serzedelo.

A condenação da Opus Gay ao referendo social-democrata tem por base, tal como explicou Serzedelo, o facto de entenderem que os direitos humanos não são referendáveis.

«Não passava pela nossa cabeça referendar se deve haver ou não pena de morte, se deve haver escravatura, se as pessoas não têm direito à vida e é uma fantasia que se inventou para protelar, de acordo com uma agenda neoliberal, um direito de crianças», defendeu o presidente da organização.

A Associação Rumos Novos - Homossexuais Católicos, em comunicado, diz que se associa às manifestações de indignação «na condenação do vergonhoso comportamento no Parlamento dos deputados eleitos pelo povo aquando da aprovação do referendo à coadoção por casais do mesmo sexo».

«A aprovação vergonhosa da realização deste referendo, que mais não passa de uma tentativa desesperada de adiar o progresso inevitável, coloca Portugal em contraciclo em relação aos seus parceiros comunitários, entende a associação.

Por outro lado, a Rumos Novos acusa os deputados do PSD de se terem demitido das suas responsabilidades, já que «preferiram optar por não proteger devidamente as crianças já existentes no seio de famílias constituídas por casais do mesmo sexo».

«Estamos certos que os homossexuais, católicos ou não, porque também são eleitores, não esquecerão aquilo que hoje se passou», avisam.

Já a UMAR - União das Mulheres Alternativa e Resposta condena a aprovação do referendo, apontando que se tratou de uma iniciativa para a «maioria parlamentar conservadora ganhar tempo».

«Com a votação de hoje, uma manobra tosca e delatória, a direita visa congelar o processo de reconhecimento legal dos filhos e filhas de casais LGBT [Lésbico, Gay, Bissexual e Transgénero], que era o que estava em causa com a co-adopção. Estas famílias já existem e têm de ver reconhecidos todos os seus direitos sociais e cívicos», defende a UMAR.

Para a associação trata-se de um retrocesso semelhante ao que ocorreu em Espanha relativamente à legalização do aborto, já que para a UMAR a realização de um referendo é uma «ofensiva conservadora contra os direitos humanos».

O referendo sobre coadoção e adoção de crianças por casais do mesmo sexo foi aprovado hoje no Parlamento com os votos favoráveis do PSD e a abstenção do CDS.

Os sociais-democratas propõem que sejam colocadas aos portugueses as seguintes questões: «1. Concorda que o cônjuge ou unido de facto do mesmo sexo possa adotar o filho do seu cônjuge ou unido de facto? 2. Concorda com a adoção por casais, casados ou unidos de facto, do mesmo sexo?».

Depois de aprovado, a convocação do referendo terá ainda de passar pela fiscalização preventiva obrigatória do Tribunal Constitucional e, em última instância, dependerá da decisão do Presidente da República.