Um estudo sobre cidadania ativa de jovens europeus concluiu que a escola “está tão sobrecarregada de preocupações com exames, notas, acesso à universidade que não há espaço para a construção de uma identidade política, no sentido de cidadania”.

As conclusões deste estudo foram discutidas esta terça-feira na Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto (FPCEUP), no seminário "O papel das escolas na promoção da cidadania ativa de jovens europeus: As perspetivas de professores/as e estudantes".

Uma questão que saiu reforçada deste projeto é a ideia da escola como um espaço essencial na construção de uma identidade política no sentido de cidadania, no sentido de pertença europeia”, explicou à Lusa Isabel Menezes, investigadora da FPCEUP.

De acordo com a responsável, “os alunos sentem é que estas coisas da vida real têm pouca relação com aquilo que eles abordam nas escolas”.

Neste estudo, que incluiu Portugal, Itália, República Checa, Alemanha, Suécia e Estónia, estiveram envolvidos 16 professores e cerca de mil jovens de cada país, divididos em diferentes grupos, com idades compreendidas entre os 16 e os 26 anos.

“É comum, quer aos estudantes, quer aos professores, esta ideia de que as escolas, de que o processo educativo está atafulhado de preocupações com exames, com o acesso à universidade. É muito interessante verificar que este é um discurso dos jovens portugueses, mas também dos jovens na Alemanha, na Estónia ou na República Checa”, sublinhou Isabel Menezes.

E acrescentou: “Eles sentem que a preocupação com a avaliação, com os exames, com os testes e com as notas é de tal maneira que tudo ao lado é terra queimada. Toda a gente anda preocupada, os pais, os professores, os alunos”.

“Portanto, a determinada altura o peso desta avaliação acaba por ser tão saliente que acaba por retirar tempo e espaço que na escola podia ser aproveitado para a discussão de outras coisas que são importantes também. Não estamos a dizer que os testes e os exames não são importantes, estamos a dizer que é preciso algum equilíbrio”, frisou.

Um outro aspeto destacado pelos intervenientes no estudo tem a ver com “a dimensão da experiência, da prática”.

“Lembro-me de um excerto de um aluno da Suécia que dizia assim: ‘Aqui andam-nos sempre a dizer que temos de fazer ouvir a vossa voz, mas depois nem o menu da cantina eles aceitam alterar’”, referiu Isabel Menezes.

Destacou “a importância das experiências que os alunos têm nas próprias escolas, como contextos que podem ser mais ou menos democráticos, mais ou menos autocráticos e, depois, as experiencias que eles podem ter na interface entre a escola e a comunidade”.

Por um lado, o estudo revela que, “embora existam alguns discursos que mostram alguma apatia ou desinteresse, os alunos que participaram nos grupos de discussão estão, de facto, envolvidos, discutem e falam do Brexit, do Trump ou da crise dos refugiados”.

“Eles têm um discurso, e estamos a falar de alunos de contexto socioeconómicos muito diversos porque estes estudos são feitos em escolas públicas, intencionalmente selecionadas para refletirem diversidade sociocultural das comunidades onde estamos a trabalhar”, disse a investigadora.

Os resultados deste projeto vão permitir fornecer aos decisores políticos "novos instrumentos para entender melhor esta geração", "como se aproximam das autoridades públicas" e "como se envolvem, material e simbolicamente, para moldar os regimes governamentais sob os quais vivem".

De acordo com a docente da FPCEUP, um dos grandes desafios da União Europeia é, atualmente, colmatar a lacuna entre os jovens europeus e as suas instituições, melhorando o diálogo, reforçando a confiança e o seu empenhamento ativo.

A inclusão das perspetivas dos jovens "é essencial para assegurar a continuidade da democracia participativa e representativa", referiu, acrescentando que "o discurso de que a política só é feita por especialistas, exclui, inevitavelmente, os jovens".

"Temos pouco este culto de um espaço de debate, de discussão. É qualquer coisa que falta e que acaba por contribuir para este discurso que os jovens não se interessam por estas questões", defendeu.