A antiga primeira-dama portuguesa Maria Barroso, que morreu esta terça-feira em Lisboa, esteve na origem de um cessar-fogo no sul de Moçambique em 1991, quando o país se encontrava ainda mergulhado na guerra civil.

Este episódio vem narrado por Maria Barroso no livro "Viagem a Moçambique", lançado em Maputo em 2011, quando se empenhou num entendimento entre o Governo moçambicano e a guerrilha da Resistência Nacional Moçambicana (Renamo) para a região transfronteiriça de Ressano Garcia, um ano antes do Acordo Geral de Paz entre as duas partes, celebrado em outubro de 1992 em Roma.

Quando apresentou o seu livro em Maputo, Maria Barroso contou à Lusa que conseguiu levar o antigo Presidente moçambicano Joaquim Chissano e o líder da Renamo, Afonso Dhlakama, a declararem um cessar-fogo em Ressano Garcia, sul de Moçambique para permitir a assistência às populações deslocadas.

"Soube que o meu marido [Mário Soares] tinha um encontro com o presidente Dhlakama e disse logo que queria estar. Disse ao presidente Dhlakama: ´posso pedir-te uma coisa? (...) podes parar a guerra em Ressano Garcia?`. Ele, cansado da minha insistência, disse: ´Está bem, vou parar ali a guerra", recordou Maria Barroso, a propósito da reunião, em Lisboa, que manteve com o líder da antiga guerrilha.


Antes de se encontrar com o líder da Renamo, a antiga primeira-dama de Portugal reuniu-se com Joaquim Chissano e também lhe pediu para declarar um cessar-fogo na zona de Ressano Garcia, visando a assistência às vítimas da guerra.

"Faça tudo quanto puder", declarou o então Presidente moçambicano, citado pela antiga primeira-dama, motivando o encontro que Maria Barroso viria a ter com Afonso Dhlakama em Lisboa.

Tudo começou quando Maria Barroso conheceu o projeto "Masungulo", uma revista de informação para os refugiados moçambicanos, que aos milhares tinham fugido da guerra entre Frelimo e Renamo e que viviam em condições difíceis na África do Sul, ajudados pelo padre Jean-Pierre Le Scour.

Em junho de 1991, Maria Barroso visitou os campos, emocionou-se e chorou, e prometeu a ajuda que viria ainda nesse ano.

"Nós conseguimos que a primeira mancha de paz fosse Ressano Garcia (...). Quando hoje a comunidade de Sant´Egídio [mediador do acordo de Roma], por quem tenho muita consideração, diz que foram só eles, nós fizemos modestamente uma pequena mancha de paz naquele sítio. Tivemos um papel, modesto embora, mas tivemos", afirmou, em fevereiro de 2011, Maria Barroso.


Esse papel é reconhecido pelo antigo arcebispo de Maputo, D. Alexandre dos Santos, pelo antigo Presidente Joaquim Chissano e por Afonso Dhlakama, todos eles com testemunhos no livro. "Viagem a Moçambique".

Maria de Jesus Barroso, 90 anos, presidente da Fundação Pro Dignitate, fundadora do PS, ex-deputada e mulher do antigo Presidente da República Mário Soares, morreu hoje no Hospital da Cruz Vermelha, em Lisboa, onde estava internada em estado grave há 11 dias, na sequência de uma queda, que lhe provocou um traumatismo intracraniano.

O corpo de Maria Barroso vai estar em câmara ardente no Colégio Moderno, em Lisboa, a partir das 18:00 de hoje, realizando-se o funeral na quarta-feira para o Cemitério dos Prazeres, anunciou a família.

O funeral seguirá para o Cemitério dos Prazeres após a missa de corpo presente, que terá lugar às 10:00 na Igreja do Campo Grande.