Desde o primeiro ao 12º ano, Maria (nome fictício) sempre teve problemas nas turmas que integrou. «Estavam sempre a gozar comigo. Porque era muito calada, por causa das minhas roupas, qualquer coisa que eu levava era logo comentada e gozada... Uma vez, numa aula de teatro, atiraram-me com uma cadeira. Não foi a brincar», recorda.

Agora com 22 anos, diz que não pensa nisso, uma vez que é «passado». Mas na altura confessa que teve mesmo de recorrer à ajuda de um psicólogo.

«Perguntava-me se o problema era meu, se o problema era deles... Chorava. Sentia necessidade de desabafar», revela à TVI24.

Apesar do gozo de que era alvo, sobretudo por parte de colegas rapazes, a jovem salienta que nunca deixou de ir à escola por causa disso, sobretudo graças ao apoio do seu núcleo familiar. Mas por que razão a jovem, na altura criança e adolescente, era gozada daquela forma, de forma repetida e continuada? Ainda hoje, não encontra um motivo concreto.

«Cada um tem a sua personalidade. Eu era muito introvertida, calada e nunca gostei muito de seguir a carneirada», conta.

Maria, que estudou num colégio privado de Lisboa durante esses 12 anos, recorda ainda o caso de um colega que também era alvo do mesmo tipo de agressões verbais, «por ser mais gordinho e por ser o melhor aluno da turma».
 
Se Maria considera que o ambiente do colégio privado possa ter ajudado a fomentar algum tipo de preconceitos, o caso de Isabel, que sempre frequentou o ensino público, sugere que a violência escolar é independente do facto de o estabelecimento de ensino ser privado ou público.

Durante a infância, Isabel, agora com 20 anos, sofria muitas crises de asma. Por isso, tomava cortisona frequentemente, o que contribuiu para que fosse uma criança com um peso acima do normal e alvo de gozo por parte dos colegas.

«Chamavam-me gorda, badocha, bola, tudo o que se possa imaginar» , refere. 

Usar calções ou vestidos no verão não era uma hipótese. Desabafar com alguém sobre o assunto, muito menos.  «Não queria ser vista como uma pessoa fraca ou mimada», explica. 

Os episódios de agressões verbais e exclusão, porque era posta frequentemente de parte das brincadeiras, aconteceram durante dois anos, do 5º ao 6º ano. Depois, mudou de escola e tornou-se «uma pessoa diferente».

«Comecei a integrar-me na Associação de Estudantes, a dar-me com pessoas mais velhas e tornei-me mais popular. Claro que havia sempre comentários, mas passaram a respeitar-me mais», explica.

Uma popularidade que utilizou como armadura para enfrentar os complexos em relação ao peso e afastar as alcunhas e o gozo.

Estes são apenas dois exemplos de um comportamento frequente que afeta sobretudo crianças e adolescentes: o bullying.  O termo já não é desconhecido em Portugal e, quase sempre pelas piores razões, tem gerado algum debate na esfera pública.

Bullying refere-se a um conjunto de atos de violência física ou psicológica que provocam mau-estar, desconforto, medo, vergonha e insegurança na vítima.

Esta segunda-feira, assinala-se o Dia Mundial de Combate ao Bullying e, segundo a APAV (Associação de Apoio à Vítima), esta é uma realidade preocupante, para a qual importa sensibilizar.

Ao contrário do que aconteceu com Maria, que contou aos pais e teve a ajuda de um psicólogo,
os especialistas acreditam que muitas das vítimas nem sequer cheguem a revelar que sofrem agressões, sejam elas de caráter psicológico ou físico. 

O silêncio é, muitas vezes, o caminho escolhido. Vergonha? Medo de represálias? Achar que ninguém vai acreditar?  Os motivos parecem ser vários.

De acordo com o estudo da Unicef sobre a violência contra crianças «Escondido à vista», com base em dados de 190 países, uma em cada três crianças, com idades entre os 13 e os 15 anos, em todo o mundo, são regularmente vítimas de bullying na escola.

Um estudo de 2013, resultante de uma parceria da APAV e da Intercampus, concluiu que, em Portugal, 32% dos inquiridos já tinha sido vítima ou conhecia alguém vítima de um de quatro comportamentos possíveis: stalking, cyberstalking, bullying ou cyberbullying. 

Relativamente ao bullying, a relação com a pessoa que pratica os atos está intimamente associada aos colegas de escola. Na maioria das situações, o comportamento ocorria diariamente, sendo que 53% das situações referidas duraram até um ano, segundo o inquérito.

Em Portugal, os casos de bullying têm sido alvo de alguma exposição mediática, sobretudo quando os contornos adquirem contornos mais violentos e trágicos.

O caso mais conhecido talvez seja o de Leandro, um menino de 15 anos de Mirandela, que se atirou ao rio Tua , em 2010. Apesar de os relatórios oficiais sobre a morte do adolescente não relacionarem diretamente a morte do rapaz a agressões na escola, várias testemunhas afirmaram que Leandro era vítima de bullying e que isso terá sido a razão para se atirar ao rio. Os colegas, inclusive, confirmaram as agressões e revelaram que o rapaz era visto a chorar frequentemente por causa disso.

Um ano depois, em 2011, um novo caso de bullying chocou o país. Um vídeo publicado no Facebook mostrava uma jovem de 14 anos a ser brutalmente pontapeada por duas raparigas, da mesma faixa etária. Tudo terá começado por uma acesa troca de palavras: a vítima terá insultado a mãe de uma das agressoras. A cena de pancadaria violenta foi filmada por um rapaz que assistiu a tudo, sem intervir.

Com o fenómeno das redes sociais, o bullying também parece estar cada vez mais presente nas plataformas digitais, adotando a forma de cyberbulling. 

O termo terá sido usado pela primeira vez por Bill Belsey, professor canadiano, e foi definido como «o uso de tecnologias de comunicação e informação como forma de levar a cabo comportamentos deliberados, hostis, contra um indivíduo ou grupo, com a intenção de agredir».

Seja no Facebook, no Twitter  ou no Ask.fm, os comentários depreciativos e insultos na Internet, muitas vezes sob a capa do anonimato, podem afetar os jovens de forma drástica.

Exemplo disso é o caso de Hannah Smith, uma menina britânica de apenas 14 anos, que se enforcou no próprio quarto depois de ter sido vítima de insultos violentos e continuados. Entre as mensagens deixadas no perfil de Hannah, estavam algumas como «morre, toda a gente ficará feliz», «faz-nos um favor e mata-te» ou «ninguém se importa se morreres, cretina».

O site baseado em Riga, na Letónia, acabou por ser alvo de um boicote por parte de algumas empresas como a Vodafone ou a McDonald's, que decidiram retirar os seus anúncios da rede social. 

A APAV disponibiliza um portal com informação sobre como compreender o bullying e como o jovem pode lidar com ele, que pode ser consultada de forma confidencial.