A dependência, o vício do jogo, é uma patologia que pode levar até dez anos a desenvolver-se. E em Portugal, deverá haver entre 15 a 20 mil viciados no jogo, na estimativa de especialistas de várias áreas presentes numa conferência internacional que decorre em Lisboa, até sexta-feira.

Sob o tema "Desenvolvimento do invisível e desconhecido: pesquisa, responsabilidade e regulamentação", esta 11.ª conferência europeia sobre estudo e políticas do jogo veio mostrar que o tema em Portugal é pouco estudado.

Um dos que o dizem é Henrique Lopes, presidente da Sociedade Científica Ibero Latino-Americana para o Estudo do Jogo e também investigador da Unidade de Saúde Pública do Instituto de Ciências da Saúde, da Universidade Católica.

Foi Henrique Lopes quem há quase uma década avaliou a epidemiologia do jogo em Portugal. Segundo o especialista, mais nada foi feito desde então, quando se concluiu que havia entre 0,16 a 0,20 por cento da população potencialmente dependente.

Iguais à Europa

As estimativas indicam uma percentagem idêntica à de outros países. Segundo Pieter Remmers, secretário-geral da Associação Europeia para o Estudo do Jogo (EASG, na sigla original), não há na Europa um aumento de viciados em jogo, apesar do aparecimento dos jogos na internet.

Mais jogadores online não quer dizer mais adições. Há uma pequena minoria de patologias, não há uma grande percentagem e o problema não é tão grande como se pensa", referiu em declarações à Agência LUSA.

Para Henrique Lopes, "é preciso estudar uma atividade que movimenta milhares de milhões de euros por ano". O que significa, por exemplo, avaliar a influência da raspadinha, que pode ser importante em grupos específicos.

Hoje há coisas perversas no mercado como operadores que oferecem jogos de roleta para crianças com seis e sete anos. Quando for a dinheiro, daqui a 10 anos, qual será o resultado? Há novos riscos que não estão acautelados, há situações de saúde mental que aumentam enormemente a probabilidade de viciação", alertou.

Quem mais joga, menos tem

Em Portugal, como noutros países, quem mais joga é quem menos dinheiro tem. E há cinco anos foram mais de 10 mil, os casos em tribunal ligados ao jogo. Henrique Lopes realça ainda um outro número: a probabilidade de suicídio em viciados em jogo é 30 vezes superior ao considerado normal.

Portugal tem desde o ano passado uma nova lei do jogo e por causa dela foram fechadas dezenas de páginas de jogos na Internet. Luís Coelho, diretor do Serviço de Regulação e Inspeção de Jogos, disse à LUSA que até agora já foram licenciados dois operadores para apostas desportivas e um para jogos de casino, havendo outros pedidos a ser analisados.

O responsável disse que a Inspeção mandou encerrar "uma quantidade assinalável" de páginas de jogos. Admitiu, contudo, ser "difícil monitorizar" a ilegalidade. Até porque as páginas ilegais são apetecíveis: "ao não pagarem impostos podem pagar prémios mais elevados".