O casal de emigrantes portugueses detido na sexta-feira em Inglaterra negou este domingo à Lusa a acusação de ter planeado raptar os filhos, que lhe foram retirados pelos serviços sociais ingleses há cerca de um ano.

Carla e José Pedro, residentes em Grantham, foram detidos na sexta-feira, durante 12 horas, por «suspeita de conspirar para raptar um número de crianças identificadas que estão atualmente sob os cuidados da autoridade local», disse à Lusa o porta-voz da polícia do condado de Lincolnshire, no leste de Inglaterra.

Os cinco filhos do casal - hoje com três, cinco, sete, 13 e 14 anos ¿ foram retirados pelos serviços sociais britânicos em abril do ano passado, que alegaram que os menores teriam sofrido maus tratos físicos.

O casal, de 43 e 36 anos, emigrou de Almeirim para o Reino Unido em 2003. A mãe está desempregada e já não recebe apoios sociais, mas o pai trabalha.

Em declarações à Lusa, Carla Sofia Pedro rejeitou a acusação de pretender raptar as crianças, que diz não ter «pés nem cabeça».

«Estivemos 12 horas presos dentro de uma cela gelada, sob a acusação de planearmos o rapto de três dos nossos filhos e de outra criança que nem sequer é nosso filho. É uma acusação sem pés nem cabeça, pois temos cinco filhos, nunca iríamos deixar dois para trás», disse a emigrante portuguesa, acrescentando que o casal «nunca planeou nem nunca sequer tentou» raptar os filhos.

A mulher adiantou que ela e o marido foram interrogados, cada um, durante duas horas.

«A polícia não apresentou provas nenhumas nem documentos. Só apresentaram os bilhetes [da viagem a Bruxelas] e uma foto com os meus filhos», disse Carla Pedro.

O casal foi libertado e deve voltar a apresentar-se às autoridades no dia 21 de maio.

Até lá, acrescentou, os computadores pessoais, os tablets dos filhos e os telemóveis estão sob investigação, disse Carla Pedro, que referiu que as autoridades têm em sua posse o seu cartão do cidadão e, do seu marido, «a caderneta militar, o cartão dos bombeiros, a cédula de nascimento e o boletim de vacinas».

A detenção ocorreu depois de o caso desta família portuguesa ter sido denunciado em Bruxelas por uma ativista da organização de apoio jurídico Association of McKenzie Friends, no âmbito de uma campanha para tentar reaver os seus filhos.

Carla Pedro garantiu que os serviços sociais tinham conhecimento da deslocação a Bruxelas, tendo-lhes transmitido essa informação numa reunião no passado dia 10 de fevereiro.

Sobre a situação atual dos filhos, Carla Pedro adiantou que o rapaz de 14 anos está com uma família de acolhimento, a filha, de 13 anos, está com outra família, juntamente com os irmãos de três e cinco anos e, finalmente, a rapariga de sete anos está com outra família de acolhimento.

A mulher disse que os dois filhos mais novos «vão entrar no painel de adoção no mês de abril, ou seja, a qualquer momento poderão ser adotados».

Carla Pedro referiu que, no ano passado, o casal mantinha contactos semanais com os filhos, mas este ano «só duas vezes» é que conseguiram falar com as crianças. A próxima visita está marcada para dia 03 de abril, se «os serviços sociais não a negarem», afirmou.

Questionada sobre se tiveram visitas recusadas, a emigrante respondeu afirmativamente: «Várias vezes, ainda o processo se estava a desenrolar no tribunal de família».

Apesar da situação de desemprego, Carla Pedro considera que o casal tem «condições para ficar» com os cinco filhos.

Na sexta-feira, o secretário de Estado das Comunidades Portuguesas, José Cesário, disse à Lusa que o cônsul se tinha deslocado a Grantham para contactar as autoridades e a família, mas Carla Pedro afirmou não ter falado com o diplomata.

«Sei que o cônsul esteve em Grantham porque a senhora do café «Carla`s Take Away» me disse, mas não o vimos», adiantou Carla Pedro.

José Cesário admitiu também a possibilidade de o Governo oferecer apoio jurídico ao casal, mas Carla Pedro revelou não ter ainda advogado.