É com o filho pela mão que Lucrécia, nascida na velha colónia portuguesa de São Tomé, nos conta como um protocolo entre Portugal e os PALOPS a trouxe para Lisboa. Matias de dois anos vive há um mês em Portugal e é entre sorrisos que o vemos pela primeira vez. Longe do lar, mas perto da Alegria: na Casa que apoia quem, por enfrentar doenças graves e falta de cuidados de saúde no país onde nasceu, tem em Portugal a única esperança de lutar contra a enfermidade e viver.
 
«Foi uma família que me recebeu quando cá cheguei, mas depois pôs-me na rua e vim para aqui», conta Lucrécia de Sousa Nascimento, sempre de olho no filho curioso que quer mexer em tudo. Lucrécia, que na altura da entrevista estava grávida e já foi mãe, veio como acompanhante do filho, que tem uma falha óssea tibial. A doença dificulta-lhe o andar, mas não o impede de empurrar o carrinho de brincar. Lucrécia encontrou na Casa da Alegria a ajuda que precisava para lutar pela vida do filho.


 
Isabel Aguiar Ferreira também tem uma luta pela frente. Saiu de S.Tomé há mais de um ano e primeiro esteve hospedada numa casa de família, onde alega que era mal tratada. «A doutora tirou-me logo de lá», conta a mulher de 64 anos que apesar de ser de poucas palavras quebra a reserva para falar sobre a médica que conseguiu transferi-la para a Casa da Alegria. Aqui, em 2014 já foram acolhidas 23 pessoas.
 

Isabel, com cancro da mama, na Casa apenas há uma semana, conta-nos, com a voz carregada de suspiros,  que estava a «viver com a graça de Deus».

«Essas donas receberam-me muito bem», diz timidamente a paciente mais velha sobre as três voluntárias do seu novo lar, que vão diariamente à Casa para verificar se está tudo em ordem.

 


A Casa da Alegria surgiu integrada numa rede de casas de acolhimento que fazia parte de um protocolo entre o Alto Comissariado para a Imigração e o Instituto da Segurança Social, que terminou em 2012. Nessa altura, Inês Ramirez criou a Associação Porta do Mais e deu seguimento ao projecto da Casa, criada em 2009.
 
Pretende-se que seja uma verdadeira casa de família, por isso as tarefas são realizadas pelas pacientes ou pelas acompanhantes. Quem as estipula é Irene Rivotti, a governanta, que além de fazer as compras e destinar o que se irá cozinhar, também acompanha as doentes nas consultas.
 

«Tudo começou com a necessidade de um espaço de acolhimento que não só os acolha de uma forma humana, onde sejam bem tratados e tenham tudo o que precisam, mas onde haja um seguimento do percurso de cada doente e um apoio direto na ligação aos hospitais e na sua integração em Lisboa», explica Inês Ramirez, a diretora da casa.

 
Por isso, Irene, a governanta, acompanha as pacientes nas consultas para poder explicar aos médicos a situação em que elas se encontram. Esse acompanhamento é essencial para se compreender quanto tempo é que a doente terá de ficar em Portugal, ou se pode regressar ao país de origem e voltar mais tarde para consultas ou tratamentos.
 
Apesar de estas pessoas chegarem ao abrigo de protocolos, os governos dos países de origem só asseguram o pagamento dos voos. Durante o período hospitalar, Portugal assume o tratamento hospitalar, mas as restantes responsabilidades caiem numa espécie de limbo diplomático. Os doentes defendem que deveriam ser os países de origem a assumir os encargos.  Não sendo essa a realidade, os pacientes que chegam a Portugal à procura da vida, além de receberem cuidados por médicos portugueses, acabam também por ser apoiados pela solidariedade nacional.
 
Um apoio que acaba por ser reduzido para os inúmeros pedidos provenientes de embaixadas, de hospitais, da Santa Casa da Misericórdia, de Centros Locais de Apoio ao Imigrante e do Alto Comissariado para a Imigração. Muitas vezes as pacientes têm de aguardar vários meses até conseguirem ter um lugar na Casa, com camas apenas para 15 pessoas.


 
«Chegamos tarde e ficamos cá a sofrer», lamenta Fernanda Pires da Silva, que esteve em lista de espera nove meses e só conseguiu ter vaga na Casa em outubro. A são-tomense de 48 anos tem um problema na retina que a pode deixar cega, por isso teve de deixar os oito filhos em São Tomé para poder ser operada. Mas a espera pelo tratamento deixou-a com a condição agravada.
 
«Mandam-nos para aqui e depois não têm que dar satisfações», queixa-se Isabel de Sacramento, que vive na Casa já há dois anos e não sabe quando poderá regressar a São Tomé. Descontente com a sua situação, a doente de cancro da mama admite que viver na casa «é bom» pois assim tem «lugar para dormir e comer», mas eleva o tom de voz quando refere a atitude do seu Governo.
 
Todas as mulheres da Casa se mostram indignadas e insatisfeitas, tecendo várias críticas aos Governos, por apenas receberem dinheiro para o passe e para o telemóvel. A situação agrava-se pelo facto de terem dificuldade em arranjar emprego, uma vez que não têm residência e estão doentes.
 
«A doutora disse que não podíamos trabalhar. A gente não pode fazer esforço por causa do braço», diz Isabel enquanto toca no braço do lado em que foi a intervenção cirúrgica. Apenas uma das pacientes, a guineense que vive em Portugal já há quatro anos, tem cartão de residência, mas como tem um filho demasiado dependente dela está limitada.
 
Assim, ali os dias são passados confinadas à Casa da Alegria, ocupadas com as tarefas domésticas, enquanto aguardam as consultas. Por vezes, nos tempos livres vão recebendo formação em informática, costura e croché. Mas a rua, essa, só chega quando é dia de ir ao hospital travar mais uma batalha. Ali, apesar da esperança do tratamento, o tempo passa um pouco como na terra distante: a sonhar com o dia em que a saúde vai voltar.