Apesar das importações de carne do Brasil terem diminuido nos últimos anos, um dos maiores comercializadores brasileiros, a empresa BRF, que está a ser fortemente investigada pela polícia, exportou para Portugal.

No seu relatório e contas de 2015, acessível através do site da empresa, a par de Espanha e Grécia, Portugal é um dos países para onde foram exportados alimentos da marca Sadia.

Decidimos trabalhar com embalagens apropriadas para food service na Itália, na Espanha, na Grécia e em Portugal, com a marca Sadia, além do varejo. Chegamos a mais de 1.500 toneladas em 2015", refere o relatório, mencionando a área de produção e venda de alimentos cárneos embalados e conservados no frio.

A BRF e a JBS são duas das maiores empresas de produção e comercialização de carnes de vaca, porco e aves no Brasil, o país que é um dos maiores exportadores mundiais. Ambas estão na mira da polícia, no âmbito da operação "Carne fraca", que investiga esquemas de fraude e corrupção.

De acordo com as investigações, levadas a cabo durante dois anos e reveladas publicamente na sexta-feira, há empresas suspeitas de subornarem fiscais do Ministério brasileiro da Agricultura, para fecharem os olhos a alimentos adulterados e emitir certificados sanitários sem realizar fiscalizações.

Ambas as gigantes brasileiras de produção e comercialização de carne já vieram a público negar qualquer crime. Ainda assim, unidades da BRF foram seladas pela polícia.

Mais de 500 toneladas importadas

No ano passado, Portugal importou de forma directa, 524.519 quilos de carne do Brasil, de acordo com dados do Instituto Nacional de Estatística, adiantados esta terça-feira pelo jornal Público. Foram 284.812 quilos de carne de bovino congelada, 284.812 quilos de carne fresca ou refrigerada de vaca e 52.008 quilos de carne fresca, refrigerada ou congelada de aves.

Apesar do volume, a importação de carne brasileira tem vindo a diminuir face a anos anteriores.

No caso de Portugal, em 2016, foram recebidas 363 remessas de produtos de origem animal provenientes do Brasil. Todas foram submetidas a controlos de identidade e documental nos Postos de Inspeção Fronteiriços, Não se tendo registado nenhum caso classificado como “não satisfatório”", salienta um comunicado da Direção-Geral de Alimentação e Veterinária (DGAV).

A DGAV frisa que as investigações no Brasil abrangem "21 estabelecimentos de produção de carne implicados numa fraude (3 dos quais foram colocados de imediato sob regime especial de fiscalização)", mas que só "quatro deles estavam autorizados a exportar para a União Europeia".

Nessa medida, a Comissão Europeia emitiu hoje um comunicado dando nota da retirada desses 4 estabelecimentos brasileiros da lista oficial de estabelecimentos autorizados para exportar para a União Europeia", refere o comunicado da DGAV, emitido segunda-feira.

No caso do espaço comunitário, no ano passado, foram importadas do Brasil "853 000 remessas de produtos de origem animal", refere ainda o comunicado, realçando que "184 das quais apresentaram “não conformidades” (0,02%) detetadas pelas autoridades dos países importadores".

A maior parte dessas “não conformidades” não eram de natureza sanitária, tratando-se, por exemplo, questões de rotulagem e preenchimento de certificados", acrescenta a DGAV.

Riscos para os consumidores

Apesar da tentativa de acalmar os consumidores europeus, as questões sobre as importações de carnes brasileiras estão a levantar diversas questões. Em Bruxelas, o eurodeputado britânico e coordenador da Comissão de Agricultura no Parlamento Europeu, Jim Nicholson, exigiu já saber como a Comissão Europeia está a lidar com o caso.

Pedi à Comissão que forneça informação sobre que quantidade de carne foi importada do Brasil por cada Estado-membro, temos que ser capazes de calcular que risco correm os consumidores na Europa”, indicou Nicholson, em comunicado.

Nicholson interveio esta terça-feira numa reunião da Comissão de Agricultura do Parlamento Europeu para exigir informação de Bruxelas sobre a quantidade de carne importada do Brasil nos últimos anos e ainda um relatório sobre que riscos correm os consumidores europeus.

Já na segunda-feira, alguns dos principais mercados de importação de carne brasileira suspenderam as compras a empresas sob suspeita.

Além da União Europeia, houve também congelamento temporário das compras por parte do Chile, Coreia do Sul e China, um dos maiores clientes da carne brasileria.

Segundo o ministro da Agricultura do Brasil, Blairo Maggi, o Governo chinês pediu esclarecimentos sobre as supostas irregularidades cometidas por fabricantes de carne brasileiros e decidiu reter nos seus portos as cargas já embarcadas até que essas informações cheguem e sejam avaliadas.

No caso do Chile, a notícia foi confirmada pelo ministro da Agricultura daquele país, Carlos Furche, que usou a rede social Twitter para informar sobre a suspensão temporária das importações de carne do Brasil.