Por: Cláudia Lima da Costa | 2- 9- 2010 22: 12
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Foi a 1 de Fevereiro de 2003 que Portugal parou sem querer acreditar no que os olhos viam. Carlos Cruz, uma das mais conceituadas
e respeitadas figuras públicas em Portugal, foi preso. A cruz da pedofilia ficou desde este dia ligada à sua imagem. Dizer Casa Pia é também
dizer Carlos Cruz, mas este mega-processo é mais do que isso. Casa Pia é um «caso de estudo» para a Justiça e um marco no
sistema penal. Esta sexta-feira e depois de muitos números e episódios, Portugal espera finalmente a hora da verdade.
A
notícia de abusos sexuais a menores numa instituição de menores é motivo suficiente para escandalizar, no entanto, foi com
o envolvimento de figuras públicas
e com a chegada do processo à esfera política que a verdadeira surpresa se instalou. Hugo Marçal, Ferreira Diniz, Manuel Abrantes,
Gertrudes Nunes, Jorge Ritto e Carlos Silvino são nomes que os portugueses só conhecem pelo envolvimento com o processo.
O
envolvimento de Paulo Pedroso no processo foi um «terramoto político»
que levou o juiz Rui Teixeira à Assembleia da República para um pedido de levantamento de imunidade parlamentar.
Uma
prisão preventiva, também aplicada a Carlos Cruz, e que adensou as suspeitas graves à volta dos arguidos. Não era fácil acreditar
que figuras públicas inocentes estivessem detidas, mas a ideia de culpa era igualmente inacreditável.
O envolvimento
de Ferro Rodrigues e a divulgação de escutas com palavras impróprias foi outro dos episódios marcantes.
Não pela
implicação no processo judicial que veio a decorrer sem qualquer político envolvido, mas sim pelas repercussões no sistema
penal e na ligação dos media com a justiça. A divulgação de escutas em segredo de Justiça continuou a acontecer em Portugal,
ainda que com mais «cuidado». No entanto, a reforma penal de 2007 veio colocar um «travão» à divulgação de peças processuais.
A ligação do processo Casa Pia à reforma penal de 2007 não é aceite por todos, mas terá implicações na sentença.
Os arguidos serão condenados por crime continuado com cada vítima e não pelo número de abusos cometidos.
Casa
Pia, um monstro de números
Cinco anos e dez meses temos o «monstro». Milhares de horas de sessões deram origem
em números que parecem impossíveis. Um dos mais impressionantes é o número de testemunhas ouvido: 920. A estes juntam-se as
32 alegadas vítimas, 19 consultores técnicos e 18 peritos.
Organizadas em 273 volumes e 588 apensos estão mais de
66 mil folhas, nos quais estão os cerca de dois mil requerimentos e os 168 recursos interpostos. Foram ainda usados mais de
mil cd e 352 dvd, quase mil cassetes áudio e mais de uma dezena de cassetes vídeo VHS. «Um caso de estudo», admitiu o Conselho
Superior de Magistratura.
As vítimas e as frases
Casa Pia é um processo de números, de figuras públicas,
de política, mas sobretudo de vítimas. São elas que esta sexta-feira buscam a Justiça. Das 32 vítimas, algumas ainda hoje
contam a sua história, de sucesso ou de insucesso.
Das muitas entrevistas dadas fora do julgamento saíram frases que parecem
resumir o que muitos estão à espera que aconteça esta sexta-feira. «Processo
Casa Pia vai ter dois condenados: o Bibi e eu», confessou Souto Moura. Carlos Cruz deu à TVI a primeira entrevista
depois de anos em silêncio, onde se confessou como um «indivíduo assassinado
civicamente».
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