O juiz Carlos Alexandre, responsável por alguns dos casos mais mediáticos dos últimos tempos, como o que resultou na prisão preventiva do antigo primeiro-ministro José Sócrates, teme estar a ser espiado por uma organização secreta. Isso mesmo disse à procuradora Emília Martins, do Tribunal da Relação que investigou uma nova denúncia anónima de que foi alvo e que terminou arquivada.
 
A denúncia, apresentada através de carta anónima à Procuradoria-Geral da República e datada das vésperas de Natal do ano passado, levantava suspeitas de que Carlos Alexandre estaria a passar informações importantes sobre processos que tinha em mãos a um jornalista da revista “Sábado”. De acordo com a missiva, o jornalista em causa teria descoberto factos comprometedores relacionados com os bens do juiz e este teria ficado sem outra alternativa que não passar-lhe informações privilegiadas sobre processos judiciais.
 
Interrogado em março do ano passado pela procuradora do Tribunal da Relação, Carlos Alexandre disse suspeitar que estaria a ser vigiado. De acordo com o jornal “Público”, o juiz confirmou que há informações na denúncia que são facilmente encontradas em notícias de jornais, por exemplo. Já outras informações, considerou o juiz, como a referência à entidade de convivas em jantares de confraternização com seus conterrâneos de Mação ou mesmo a conversas que são mantidas nesses convívios, são informação privilegiada a que nem todos têm acesso.
 
O juiz considerou a referência a essas informações como “uma espécie de garde à vue própria de organizações secretas ou que na prática se comportam como tal.”
 
O processo, que acabou arquivado, depois de a procuradora ter considerado que a denúncia podia ser encarada como uma forma de pressão ou de desacreditação do magistrado, é já o segundo de que o juiz é alvo. Outra denúncia anónima, adianta o “i”, relatava que o juiz tinha almoçado com um jornalista da “Visão” numa tasca de Moscavide e, nesse almoço, ter-lhe-ia fornecido informações sobre o interrogatório a Ricardo Salgado. Também essa denúncia acabou arquivada, depois de a investigação concluir que o teor da conversa mantida no referido almoço não correspondia ao constante dos autos do interrogatório ao banqueiro.
 
No interrogatório sobre esta segunda denúncia, que levantava suspeitas sobre os bens do juiz, Carlos Alexandre fez questão de esclarecer a procuradora sobre os seus rendimentos e sobre os bens que tinha em seu nome. Sublinhou que os rendimentos familiares ascendiam agora aos oito mil euros (quatro mil provenientes das funções que acumula como juiz, dois mil do salário da mulher, que é chefe de uma repartição de Finanças, e outros dois mil provenientes de arrendamentos de imóveis e da reforma da sogra que mora com eles). O magistrado esclareceu ainda que paga 2 mil euros por mês pelo empréstimo que contraiu junto da Caixa Geral de Depósitos para comprar a moradia da família em Linda-a-Velha, mais 600 euros pelo empréstimo para comprar o apartamento de férias no Carvoeiro e outros 400 para pagar a prestação do BMW 320.
 
O juiz esclareceu ainda que tem uma casa em Mação, que herdou dos pais e que reconstruiu com a irmã e outros imóveis na zona do Alandroal, que herdou do sogro e que mantém alugados.
 
Além disso, o magistrado está a construir uma outra moradia em Mação, para a qual contraiu um empréstimo junto da Caixa de Crédito Agrícola Mútuo e que será entregue em tranches, consoante o ritmo da construção.
 
Carlos Alexandre sublinhou à procuradora que consegue pagar estes empréstimos graças à acumulação de funções nas Varas Criminais de Lisboa, no Tribunal Central de Instrução Criminal, na secção criminal militar do Tribunal de Instrução Criminal de Lisboa e no Tribunal de Turnos de Lisboa. Isto, além dos rendimentos provenientes do salário da mulher e do arrendamento dos imóveis herdados do sogro e de “algum dinheiro” disponibilizado pela sogra.
 
O juiz disse mesmo que tem conta aberta, juntamente com a esposa, na Caixa Geral de Depósitos e que ambos assinaram um documento onde proíbem a CGD de receber outros depósitos que não os feitos pelos próprios, pelas respetivas entidades empregadoras ou provenientes de reembolsos de despesas de saúde.