A Cáritas Portugal defende a necessidade de uma estratégia nacional de combate à pobreza e exclusão social, apontando que existem apenas «medidas avulsas» com o propósito de resolver os problemas imediatos.

Numa nota a propósito do Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza e dos Sem-abrigo, que se assinala a 17 de outubro, a Cáritas, que diz ter preparado o texto juntamente com outras instituições e personalidades, refere que a abordagem atual aos problemas da pobreza e da exclusão social em Portugal está «fortemente marcada por uma ideologia ligada à emergência social».

Para a Cáritas, está-se perante um «recuo inesperado depois de várias décadas de intervenção marcadas pelo ideário da cidadania social, reconhecida constitucionalmente a partir de 1976».

«Na verdade, não existe atualmente uma estratégia de combate à pobreza e exclusão social, mas sim um conjunto de medidas avulsas que visam atenuar os problemas mais prementes e imediatos que afetam um número cada vez maior de famílias, devido ao aumento do desemprego, aos baixos salários, à redução na ajuda social pública e, em geral, à desigual distribuição do rendimento», refere a Cáritas.

Para a organização católica, a luta contra a pobreza tem de ser feita através do reconhecimento e da participação das pessoas em situação de pobreza, «respeitando a sua dignidade, os seus interesses e as suas aspirações», ouvindo-as e fazendo um trabalho conjunto e personalizado que «contribua para o aumento da sua autoestima e o reforço da sua capacidade de construção de um projeto de vida».

Na opinião da Cáritas, não se pode fazer uma estratégia de luta contra a pobreza sem alterar as políticas estruturais e defende que seja tido em conta a dimensão económica da pobreza na construção de uma política económica nacional.

«Para que tal aconteça, cada lei que o Parlamento aprova deve demonstrar ser escrutinada "à prova de pobreza"», pede a organização.

Critica igualmente quem defende que pela via do crescimento económico, «particularmente de um crescimento que apenas concentra riqueza», seja possível resolver todos os problemas da sociedade e lembra os números relativos aos desempregados, ao sobre-endividamento, à emigração, à pobreza e à privação material.

«E porque a pobreza mata, esta mudança é ainda mais urgente. Até porque a pobreza também mata a Democracia. Assim, se a necessidade de uma estratégia nacional é evidente e urgente, importa recordar que a decisão da União Europeia de que 20% do Fundo Social Europeu, entre 2014 e 2020, seja dedicada especificamente ao combate à Pobreza nos oferece uma oportunidade única e irrepetível», sublinha.

A Cáritas diz-se também preocupada com o desemprego jovem, o salário mínimo nacional, os cortes nas prestações sociais e no apoio à infância, os cortes na saúde e o desinvestimento público e a má gestão, bem como a transferência para o setor privado de «áreas chave» da proteção social.

Durante a próxima semana, a Cáritas participa na campanha «Uma só família humana, alimento para todos», lembrando que o mundo tem os recursos necessários para acabar com a fome até 2025.