Centenas de jovens médicos especialistas aguardam há mais de um ano o lançamento de concursos para a sua contratação. A denúncia é da Ordem dos Médicos (OM), numa altura em que a falta de condições nas urgências está a levar dezenas de profissionais a pedir a exclusão de responsabilidade disciplinar.

É incompreensível que, sabendo-se da chegada do inverno e do pico da gripe, nada tenha sido feito para abrir concursos públicos para as várias centenas de jovens especialistas hospitalares e de saúde pública que concluíram o internato em abril e em outubro de 2017, contrariamente ao que tem acontecido ao longo dos anos. Não se entende por que motivo não se abrem vagas na carreira médica para os especialistas que já tem ao seu dispor", condena a Ordem, em comunicado enviado à TVI, nesta quarta-feira.

Em entrevista, hoje, na TVI24, o bastonário Miguel Guimarães reiterou a urgência em contratar mais profissionais de saúde para fazer face às carências nacionais, cada vez maiores.

É necessário contratar mais profissionais - médicos, enfermeiros e assistentes operacionais. O Serviço Nacional de Saúde (SNS) tem uma deficiência de profissionais de saúde, independentemente de o primeiro-ministro ter vindo dizer que há mais profissionais hoje que há um ano. A verdade é que os que existem ainda são insuficientes em várias áreas", alertou.

A Ordem critica, ainda, o facto de a não colocação de jovens especialistas em início de carreira serve, apenas, para se "continuar a contratar milhares de horas a empresas de prestação de serviços, que sistematicamente deixam postos de trabalho vazios e doentes sem médicos", numa referência aos chamados tarefeiros

A "progressiva degradação que atinge o SNS neste início de 2018", com um "panorama idêntico de Norte a Sul do país", preocupa cada vez mais a OM, sobretudo perante a crescente "incapacidade de reagir a situações de stresse".

"De facto, sempre que ocorrem momentos fora da normalidade revela-se uma clara incapacidade de reagir e de atuar. Os planos de contingência existem mas dificilmente há autorização para serem acionados. A visão economicista e o bem tratar os portugueses entram com frequência em choque", critica a Ordem.

Miguel Guimarães considera, por isso, “inadmissível” que sejam as Finanças a determinar a eficiência dos hospitais.

Nós não podemos condicionar tudo o que fazemos neste país às Finanças. As Finanças não têm capacidade para avaliar a necessidade de um hospital. As administrações dos hospitais e dos centros de saúde deveriam ter autonomia para poderem decidir reforçar o seu capital humano, para poderem abrir mais camas, para poderem dar uma boa resposta.”

O bastonário classifica mesmo de vergonhosa a situação atual nas urgências hospitalares.

É uma vergonha porque a DGS (Direção-Geral de Saúde) definiu um determinado plano de contingência para cada hospital e esses planos de contingência significavam, entre outras coisas, poderem ser abertas mais camas consoante a dimensão do hospital e a população que servem, e também a contratação de profissionais de saúde que permitissem assegurar os cuidados de saúde aos doentes que ficassem nessas camas. A verdade é que as administrações hospitalares foram pedindo as ativações dos planos de contingências e eles não eram aprovados, eram bloqueados entre o Ministério da Saúde e o Ministério das Finanças. E esta situação é de todo inadmissível.”

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