As mulheres são mais sensíveis ao tabaco e porque aumentou o número de fumadoras os casos de cancro do pulmão também vão subir, alerta o coordenador do Programa Nacional de Doenças Oncológicas.

Nuno Miranda diz também que se nos homens se espera que a mortalidade e ocorrência de cancro do pulmão se mantenha estável, nas mulheres «é uma ilusão» pensar que não vai haver uma subida, pelo que é preciso «tomar medidas».

Dentro de três dias o Governo vai apresentar os números mais recentes sobre o tabagismo e está moderadamente satisfeito. É verdade que há um grupo de jovens (15 a 19 anos) com uma elevada taxa de prevalência (rondando os 30 por cento) mas a taxa nacional global está abaixo dos 20 por cento, pelo que diz o Governo, «uma estrondosa maioria dos portugueses não fuma».

No próximo ano será publicada nova legislação, mais restritiva, mas que deixa de parte propostas como a proibição de fumar dentro de viaturas particulares quando transportando crianças, ou de fumar perto de restaurantes ou parques infantis. «Há que ter bom senso», como disse o secretário de Estado adjunto do ministro da Saúde, Fernando Leal da Costa.

Se os dados indicam que em Portugal se fuma menos do que na média da União Europeia, é também verdade que há estudos que falam que a partir dos 13 anos um terço dos jovens afirmaram ter fumado nos últimos 30 dias. Os números são citados pela diretora do Programa Nacional de Prevenção do Tabagismo, Emília Nunes.

Olhando para gráficos da última década há em termos gerais uma diminuição de consumo mas entre 2006 e 2011 o consumo de tabaco aumentou entre os jovens. Em declarações à Lusa Emília Nunes pede no entanto cautela com as estatísticas, porque são diferentes consoante as variáveis utilizadas.

José Calheiros, do Instituto Ricardo Jorge, também pede «cuidado» com as taxas sobre o consumo de tabaco e prefere salientar as «tendências»: nos homens há uma diminuição de fumadores e o número de mulheres que fumam é idêntico ao dos homens (tradicionalmente era menor).

Ana Maria Figueiredo, coordenadora da comissão do tabagismo na Sociedade Portuguesa de Pneumologia, acrescenta, em declarações à Lusa: «O grande problema é a prevenção, porque há muitos jovens a começar a fumar, embora não hajam dados concretos».

Para a responsável «a única hipótese é campanhas de prevenção maciças», porque a idade média de início do hábito é os 14-15 anos e tem de haver campanhas governamentais. E não são nunca ataques aos fumadores, mas sim proteção aos não fumadores, a esmagadora maioria, diz a especialista.

Nuno Miranda acrescenta que o tabaco não pode ser visto como um elemento de moda ou de afirmação social mas considerado aquilo que ele é, uma toxicodependência.

Numa conferência internacional sobre prevenção do tabagismo, que terminou em Lisboa na sexta-feira, o responsável deixou avisos sérios: vai haver um aumento significativo da mortalidade nas mulheres; o peso do cancro no sistema de saúde é crescente e significativo; 11,6 por cento dos internamentos hospitalares são devidos a doenças oncológicas; nos próximos anos a história do cancro do pulmão é assustadora; 87 por cento das mortes por cancro de pulmão são provocadas por tabaco.

De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), morrem por dia 10 mil pessoas devido ao tabaco. São 416 por hora, o que equivale a dizer que no tempo que se levou a ler este texto (dois minutos) morreram 14 pessoas por causa do tabaco.