Não há melhorias muito evidentes nos serviços de urgência de muitos hospitais públicos, mesmo depois das medidas anunciadas pelo Governo. Uma equipa de reportagem da TVI registou o caos em muitos hospitais, desde logo na Grande Lisboa, mas também noutros locais do país.
 
O hospital de Chaves parece um retrato de outro mundo, com doentes abandonados em macas, em condições indignas. No Serviço de Observação (SO) há doentes à espera seis horas, mesmo no caso de doentes urgentes, para serem vistos pela primeira vez por um médico. De serviço estão dois enfermeiros de manhã, dois à tarde e dois à noite para uma média diária de cerca de 200 doentes.
 
E tem sido assim em muitos hospitais com o caos instalado sem dar sinais de abrandamento. Não é por acaso que se mantêm as demissões dos sete chefes de equipa do serviço de Urgência no hospital Garcia de Orta, em Almada, apesar das 16 camas prometidas e que irão tratar cerca de 800 doentes por ano. Nos serviços de internamento há cerca de 20 macas nos corredores. Na Urgência, outras 30. As demissões entre médicos demissionários e conselho de administração continuam.
 
No Hospital Fernando Fonseca, conhecido como hospital Amadora-Sintra, um dos maiores do país, ainda há macas espalhadas pelos corredores.
 

«A minha mãe esteve numa maca desde que chegou ao Amadora-Sintra (…). O espaço entre as macas e mínimo. As pessoas a gritar, a quererem deitar-se por debaixo das macas, com fraldas à vista de quem quer que fosse que passasse», afirmou à TVI a filha de uma doente internada.

 
É o colapso de algumas urgências, incapazes de fazer face à falta de camas para internamento. Os números conhecidos são reveladores: menos 430 camas entre 2012 e 2014.
 
No hospital de Santa Maria, em Lisboa, quando não há vagas recorre-se aos corredores. Nos mapas a que a TVI teve acesso, e que mostram a realidade da última semana, pode ver-se uma sobrelotação de camas de 147% no internamento de Medicina. À falta de camas, responde-se com 10 macas suplementares.
 

«No último banco aquilo que me perturbou mais, e que também me atingiu a mim, foi o ambiente. Quando os familiares invadem um gabinete onde muitas vezes estão médicos novos sem a experiência que eu tenho, já me bateram (…). Estamos a falar muitas vezes de médicos muito novos. A probabilidade de entrarem em pânico e errarem e de se sentirem mal e da próxima vez não quererem aparecer é muito grande», diz à TVI Nídia Zózimo, chefe de Equipa de Banco do hospital de Santa Maria.
 

José Luís Santos, enfermeiro no mesmo hospital, refere que há má gestão nos hospitais. 

«Quando muda um Governo, os atores são sempre os mesmos. Ou seja, um gestor que hoje estava num hospital do Grande Porto, se calhar na última legislatura esteve num hospital da Grande Lisboa. Ou seja, as pessoas são sempre as mesmas, os intervenientes são sempre os mesmos: apenas mudam as cadeiras», afirmou.

 
No hospital de Setúbal, há ambulâncias retidas à espera de maca para libertarem os doentes. Foi aqui que morreu Diamantino Maria Teixeira à espera de ser observado por um médico quatro horas depois de ter dado entrada nas Urgências. Tinha pulseira amarela. Diamantino Maria Teixeira era um paciente com um já longo historial de doença, desde AVC, insuficiência renal, aneurisma. A família vai apresentar queixa contra o hospital, mas também contra o médico do INEM que, ainda em casa, mandou o doente para o hospital para ser, simplesmente, hidratado. A morte de Diamantino Maria Teixeira é uma das sete que está ali está a ser investigada, ainda à espera da conclusão do inquérito.