O Norte da Europa a suar de calor e a enfrentar incêndios inéditos, como aconteceu na Suécia, o Reino Unido com temperaturas acima da média para a época e sem um pingo de chuva em junho, as temperaturas extremas em algumas regiões na Alemanha, com rios como o Reno e o Elba a absorverem tanto calor que os peixes estão a começar a sufocar, sem esquecer o ano mais quente de sempre na Grécia com temperaturas e ventos fortes que contribuíram para a rápida propagação dos incêndios que mataram pelo menos 93 pessoas e deixaram milhares desalojadas.

Já Portugal parecia, até há poucos dias, estar a sofrer do contrário e a trocar de papel com os países escandinavos, sem verão digno desse nome. Agora, as temperaturas subiram e o Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) prevê que, nos próximos dias, os valores possam atingir máximos desde que há registo em Portugal. Até sábado, e em algumas regiões até segunda-feira, as temperaturas estarão próximas ou poderão mesmo ultrapassar as registadas em agosto de 2003.

Recorde de calor foi de 47,4ºC em 2003 na Amareleja

A temperatura mais elevada de sempre em Portugal foi de 47,4 graus e registou-se no dia 1 de agosto de 2003 na Amareleja, em Moura, no distrito de Beja, de acordo com os dados disponibilizados no site do IPMA.

Nesse mesmo dia, Beja atingiu um máximo de temperatura de 45,4 graus e Santarém marcou 45,3 graus. Évora chegou aos 44,5 graus.

Confira aqui as temperaturas mais altas de sempre por capitais de distrito (Fonte IPMA):

 
Local Temperatura Data
Aveiro

39,3

27-07-2010
Beja

45,42

01-08-2003
Braga

41,3

27-07-2010
Bragança

39,5

12-08-2003
C.Branco

41,6

01-08-2003
Coimbra

42,5

01-08-2003
Évora

44,5

01-08-2003
Faro

44,3

01-08-2003
Guarda

38,3

25-07-2004
Leiria

41,8

01-08-2003
Lisboa

42

01-08-2003
Portalegre

43,3

01-08-2003
Porto

39,9

04-06-1981
Santarém

45,3

01-08-2003

Setúbal

43,5

31-07-1944

V. Castelo 

39,5 31-08-2010

V. Real 

41,4 7-08-2005
Viseu

44

24-07-1995
Funchal

38,5

10-08-1976
P. Delgada 

28,8

24-08-1988
Amareleja

Máxima no continente

47,4

 

01-08-2003

Estes valores recorde poderão agora ser ultrapassados no sábado, se os termómetros apontarem os 47 graus de máxima previstos pelo IPMA em Évora, 46 em Santarém e 45 em Beja.

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A título de curiosidade, fica o registo de que, no continente europeu, é Atenas, na Grécia, que detém o recorde da temperatura mais elevada de sempre, ao marcar 48 graus, em julho de 1977.

Cenários climáticos futuros para Portugal

Todos os modelos científicos referentes aos diversos cenários meteorológicos preveem um aumento significativo da temperatura média em todas as regiões de Portugal Continental, embora maior no interior e acompanhado de um aumento na frequência e na intensidade das ondas de calor, refere o Climate Change Post, um site especializado em mudanças climáticas nos países europeus.

Quanto à chuva, embora a incerteza seja maior, prevê-se uma redução de precipitação no território Continental, que pode vir a atingir os 40% por ano, com as maiores perdas a verificarem-se na região sul.

Temperatura do ar sempre a subir e cada vez mais ondas de calor

A temperatura máxima do ar em Portugal Continental aumentou 0,49ºC por década entre 1976 e 2006, mais do dobro da taxa de aquecimento observada para a temperatura média mundial. Já a temperatura mínima do ar subiu 0,54ºC por década, refere o Climate Change Post.

De acordo com o mesmo site, neste século XXI, as temperaturas tenderão a aumentar de forma sistemática entre 3º a 7ºC no verão em Portugal Continental, sobretudo nas regiões norte e centro do interior. Também se prevê que haja ondas de calor cada vez mais frequentes e mais intensas.

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Em Lisboa, a tendência é para que a temperatura média no verão suba de 28°C para 34°C, com a frequência de dias quentes (> 35°C) a aumentar dos atuais cinco para aproximadamente 50 por ano.

A par do aumento do número, duração e intensidade de ondas de calor, no decorrer deste século, haverá menos períodos de frio em Portugal, que serão também menos intensos. As previsões são feitas com base num estudo em que os impactos de um cenário das mudanças climáticas (o chamado cenário RCP8.5) foi avaliado para dois períodos futuros: médio prazo (2046-2065) e longo prazo (2081-2100), em comparação com o clima de referência recente (1986-2005).

Cada vez menos chuva ao longo do século

No que diz respeito à precipitação, os anos mais secos estão a ocorrer no século XXI e, em geral, tem-se verificado uma diminuição da chuva na primavera.

Se se considerar o índice de seca PDSI (Palmer Drought Severity Index), pode verificar-se que os períodos de chuva sofreram alterações significativas nas últimas décadas em particular no Sul de Portugal Continental, com séries mensais que revelam que os episódios de seca foram mais frequentes e mais severos a partir de 1980.

O Climate Change Post refere que os últimos 30 anos foram particularmente secos em Portugal continental. 2005 foi o ano mais seco dos últimos 78 anos, seguido por 2007 e 2004.

Para caracterizar as mudanças de precipitação em Portugal foram utilizados cinco modelos climáticos regionais (RCMs) aplicados a um período futuro entre 2071 e 2100 comparado com o período 1961-2000.

De acordo com estes resultados, a precipitação anual no continente, no século XXI, deverá diminuir 20 a 40% em comparação com os níveis registados atualmente e em resultado de uma redução das estações chuvosas.

Por regiões, a chuva diminuirá entre 15% por ano no norte do país e mais de 30% no sul.

Água do mar mais quente

Ainda de acordo com os estudos divulgados pelo Climate Change Post, a água do mar aqueceu de forma generalizada ao longo da costa portuguesa durante as últimas décadas (1980-2010), principalmente na primavera e no verão.

A temperatura média anual da superfície do mar aumentou em + 0,1°C por década ao longo da costa noroeste e sudoeste, e em + 0,2ºC por década ao longo da costa sul. O aquecimento é mais alto no verão: +0,2-0,4°C por década na costa noroeste e sudoeste, e +0,4-0,5°C por década na costa sul.