Dois aviões militares russos entraram esta quarta-feira em espaço aéreo sob jurisdição portuguesa, uma situação que, segundo o coronel António Almeida Tomé, antigo militar da Força Aérea, «nem na Guerra fria aconteceu».

 

De acordo com um comunicado da NATO, oito aviões russos foram inicialmente detetados no Mar do Norte, tendo sido intercetados pela Força Aérea Noruega. Seis deles foram em direção à Rússia, mas dois separaram-se da formação e seguiram para Sul.

 

Foram estes dois aviões que os dois F-16 da Força Aérea Portuguesa intercetaram sobre o Oceano Atlântico. «Isto nunca aconteceu. Nem na Guerra Fria aconteceu uma coisa destas», comentou à TVI24 Almeida Tomé.

 

Segundo o especialista, que já tinha explicado à TVI24 o objetivo da Rússia de testar as defesas da NATO ao invadir o espaço aéreo e marítimo dos países bálticos, esta é uma «violação muito grave» do espaço aéreo de responsabilidade nacional.

 

«Estes movimentos servem para testar o tempo de reação da NATO. Os russos querem saber quanto tempo demoram os caças a intercetá-los», afirmou.

 

Neste caso, Inglaterra, França e Espanha terão detetado estes caças russos no seu espaço aéreo antes de Portugal. «Vários países vão acompanhado estes aviões com radares. São caças já muito grandes, devem ser bombardeiros já com uma certa capacidade ofensiva. Eles são lançados no Norte, junto ao Báltico, e devem ter reabastecimento em voo. Ou seja, há a possibilidade de outros aviões russos terem violado outro espaço aéreo para os reabastecer», explicou o coronel.

 

Quando os russos chegaram à «zona de responsabilidade e busca nacional», que será «30 ou mais vezes maior do que o território português», segundo Almeida Tomé, foram avisados o Estado-Maior da Força Aérea e o Estado-Maior General das Forças Armadas, seguindo-se o ministro da Defesa e o Presidente da República. A ordem para intercetar os aviões russos é sempre do comando supremo da NATO.

 

De acordo com as declarações de Aguiar Branco, os caças que «estão sempre em prontidão na Base de Monte Real», em Leiria, foram então destacados para intercetar os russos. Segundo Almeida Tomé, a técnica de interceção consiste numa «aproximação».

 

«Os pilotos ficam em contacto visual, mas em princípio não comunicam, até porque os russos podem não estar na mesma frequência. Normalmente, é por sinais gestuais internacionais que o piloto português diz: abandona o meu espaço aéreo e vai para o espaço aéreo internacional», relatou o ex-militar da Força Aérea. Os F-16 devem depois escoltar os caças estrangeiros até esse espaço aéreo.

 

O ministro da Defesa considerou que, neste caso, «o sistema funcionou na normalidade». «A situação, com certeza, será objeto de avaliação por parte da NATO» e será no âmbito da NATO que «serão tomadas as medidas necessárias para acautelar este tipo de situações», completou Aguiar Branco.

 

Recorde-se que a Força Aérea Portuguesa está envolvida numa missão da NATO no Báltico, durante a qual já intercetou também aviões militares russos. No entanto, desta vez, estes vieram até espaço sob jurisdição nacional, mostrando que a Rússia está a alargar o âmbito dos seus testes às defesas da parceria militar transatlântica.

 

Os aparelhos russos que violaram o espaço aéreo sob jurisdição nacional esta quarta-feira não apresentaram planos de voo, nem mantiveram contactos com as autoridades civis de controlo de tráfego aéreo e tinham os transponders (dispositivos que permitem a identificação e deteção dos aviões) desligados.

 

«Isso representava um potencial risco para a aviação civil, já que o controlo de tráfego aéreo civil não pode detetar essas aeronaves ou garantir que não haja interferência com o tráfego aéreo civil», sublinhou a NATO no comunicado.

 

O Estado-Maior General das Forças Armadas (EMGFA) também emitiu uma nota sobre este incidente, garantindo que «os meios acionados cumpriram a sua missão, encontrando-se a situação a ser acompanhada no âmbito da NATO».