Quem o visse a cirandar pelo auditório, cumprimentando amigos, familiares e colegas de curso, não diria que, minutos depois pesaria sobre os seus ombros a responsabilidade de defender a sua tese de doutoramento. Trajado a rigor, de fato e gabão, Brasilino Godinho exibia a calma que os 85 anos já lhe garantiram.

Esta quarta-feira à tarde, na Universidade de Aveiro, tornou-se Doutor. Foi aprovado, por unanimidade dos cinco elementos que constituíram o júri, e ainda teve direito a rasgados elogios de cada um deles.

Depois de conhecer o resultado, não escondia a alegria:

É um dia muito feliz para mim. É um dia muito marcante na minha vida. E acho que também é um dia muito importante para a Universidade de Aveiro. Um jovem de 77 anos que ingressou como caloiro, tirou a sua licenciatura e, agora, aos 85 anos, está a tirar o doutoramento. Acho que é um dia muito marcante também para a própria Universidade.”

Brasilino Godinho deu mais um passo na aventura académica que iniciou aos 77 anos, quando se matriculou no Ensino Superior, sem dizer nada à família. “Seguir para uma universidade e tirar um curso universitário era já um desígnio que eu tinha da minha adolescência. Era ainda adolescente, com 15 ou 16 anos, quando me comecei a preparar culturalmente para entrar um dia na universidade”, explicou.

Mas não lamenta que o cumprimento do desígnio só tenha acontecido agora, aos 85 anos: “Neste momento, tem um valor muito maior. Naquela altura, se tivesse seguido carreira universitária, teria seguido engenharia, que não era o que eu realmente queria (…). Não seria o homem que sou hoje.”

Quem acompanhou esta última fase do percurso, sublinha-lhe a dedicação e a autodisciplina. Maria Manuel Baptista, orientadora da tese e diretora do programa de doutoramento em estudos culturais da Universidade de Aveiro e da Universidade do Minho, lembra as “longas conversas” que conduziram ao resultado final.

Foi sempre um excelente aluno. Muito cumpridor, muito autodisciplinado. (…) Muitas conversas, muito longas. Havia que lutar contra formas já muito estabelecidas de escrever e que não são típicas da academia e das universidades. A tudo, o Doutor Brasilino correspondeu com uma energia e uma alegria muito grandes.”

A Professora lembra também o poder de argumentação de Brasilino Godinho, que, a par com a “excelente nota de licenciatura”, lhe permitiram passar diretamente da licenciatura para o doutoramento.

“Quado acabou a licenciatura, procurou-me, dizendo-me que queria prosseguir os estudos. Disse-lhe que teria que tirar primeiro o mestrado. Ele disse-me: ‘Professora, não vai dar tempo! Com a idade que tenho ou vou já para doutoramento ou não tiro o doutoramento!’”.

Aconselhou-o a fazer uma exposição aos órgãos máximos da Universidade e o agora Doutor não hesitou:

Fez um longo texto, como é normal no Doutor Brasilino, onde se explicou muito bem. Uma das coisas que lembrava ao senhor Reitor é que ele tinha sido o técnico que tinha desenhado todo o sistema de escoamento de águas da Universidade. Nesse sentido, achava que a Universidade lhe podia retornar, de alguma maneira, agilizando este processo de doutoramento. Porque, se a Universidade funciona nos seus interstícios, a ele lho devia.”

O reitor acedeu e o resultado foi testemunhado esta quarta-feira por uma sala praticamente cheia. Falou com paixão de Antero de Quental e do patriotismo presente na sua Obra. Paixão tamanha que o levaram a lançar um desafio à Universidade dos Açores: dar o nome do escritor à instituição. 

Brasilino não quer ficar por aqui. Sabe que quer trabalhar. Dar aulas. E quem sabe até seguir para um pós-doutoramento. Tudo “depende da evolução das próximas semanas”.

Sabe apenas que não quer parar. “Parar é morrer e eu acho que ainda sou muito jovem e ainda tenho alguns anos pela frente”.