Por: Redacção / Manuela Micael | 23- 8- 2009 19: 10
Letícia Barreto chegou a Portugal há dois anos. Veio legalizada, convidada para ensinar numa escola de artes de Lisboa.
Em momento nenhum se arrependeu de atravessar o Atlântico. Mas os papéis todos em ordem não evitaram que sofresse na pele
os estereótipos e os preconceitos dos portugueses.
Cedo começou a fazer reflectir essa experiência na arte que produz.
«Assim que eu vim, eu soube que tinha de fazer algum trabalho artístico com a minha experiência de emigrante. Eu vim legalizada
e, em hora nenhuma, isso facilitou a minha vida na hora de conseguir documentos e contornar a burocracia», explicou ao tvi24.pt.
Letícia
não guarda nenhum rancor dos portugueses, antes pelo contrário. Sublinha que fez amigos por cá que «são como família». Admitindo
que a «irrita» esse preconceito, que às vezes lhe põe o próprio trabalho em causa, Letícia sabe que também foi isso que a
inspirou. Além disso, ressalva que o preconceito não é exclusivo do povo português. «Todo o povo tem um estereótipo a respeito
de outro. Não é uma coisa específica da sociedade daqui. Seria até um contra-senso achar que a sociedade pensa toda da mesma
forma. Foi assim que o estereótipo começou», diz.
«A ideia geral deste trabalho é desconstruir este estereótipo
que existe da mulher brasileira dentro da sociedade portuguesa e mostrar a realidade da mulher emigrante que está para além
daquela que é mostrada pelos media e que está para além do imaginário colectivo», acrescenta, enquanto mostra ao tvi24.pt
o processo de construção da obra que já se tornou tese de mestrado na Universidade de Évora.
Para avançar com o trabalho
académico, Letícia entrevistou várias dezenas de brasileiras e quis descobrir como se sentiam as mulheres imigrantes por cá.
Encontrou histórias interessantes, como a da jovem, que para conseguir a documentação, foi a casa da vizinha pedir que assinasse
o papel em como vivia no prédio. Além de não conseguir a assinatura (a vizinha não quis assinar porque ela era brasileira),
ainda ficou trancada na rua e esperou horas ao frio pela colega portuguesa com quem dividia o apartamento, até conseguir entrar
em casa.
O trabalho de Letícia vai muito além deste projecto que está a desenvolver, como se pode ver no site oficial da artista. Mas, se este trabalho ajudar a mudar
mentalidades, Letícia sentir-se-á realizada. «É um bocado pretensioso achar que um trabalho vá acabar com um preconceito que
está tão arreigado na sociedade, mas se eu tiver a possibilidade de fazer com que pelo menos uma pessoa pense um bocadinho
diferente, já valeu a pena», explicou.
E deixou o recado também para quem muda de vida e de país: a luta tem de
partir dos dois lados. «É importante que quando a gente vai para outro país, seja como imigrante, seja como turista, que a
gente aprenda alguma coisa a respeito da cultura do outro. Porque a gente quando quer ser respeitado, tem de respeitar em
primeiro lugar», avisou.
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