Centenas de pessoas concentraram-se esta segunda-feira em Lisboa, Porto e Braga para evocar a ativista política brasileira Marielle Franco, assassinada na quarta-feira no Rio de Janeiro, no Brasil.

Em Lisboa, foram cerca de 500 pessoas que se concentraram na praça Luís de Camões.

A 14 de março, Marielle, de 38 anos, foi morta à saída de uma favela do Rio, com quatro tiros na cabeça, com balas da Polícia Militar, cujos excessos ela diariamente denunciava desde que o presidente, Michel Temer, ordenou, há cerca de um mês, uma intervenção do Exército, que tem matado muitos civis, por serem das favelas, negros e pobres.

“Não acabou! Tem que acabar! Eu quero o fim da Polícia Militar!”, “Fora Temer!”, “Golpistas, fascistas - não passarão!”, “Racistas, machistas - não passarão!” e “Importam vidas pretas!” foram algumas das palavras de ordem repetidas pela multidão concentrada junto à estátua de Camões, onde o Coletivo Andorinha – Frente Democrática Brasileira de Lisboa, um dos movimentos que convocaram o protesto, afixou um enorme retrato desenhado de Marielle Franco.

Em baixo, lia-se “Marielle presente”, um mote da manifestação, ao qual os participantes respondiam “Hoje e sempre!", e depois também “Anderson presente! Hoje e sempre!” (Anderson era o nome do homem que conduzia a viatura onde Marielle seguia e que foi também assassinado).

Para Ana Caroline Santos, do Coletivo Andorinha, a importância desta concentração é que haja “uma solidariedade internacional perante o que acontece no Brasil, [porque] o assassínio de duas pessoas, sendo uma delas uma mulher negra, política, defensora dos direitos humanos, é algo que mostra para o mundo o que, de facto, está acontecendo no Brasil”.

Os assassínios de Marielle e de Anderson são oriundos da violência que acontece hoje no Brasil, mas foram assassínios diferenciados: Marielle foi silenciada, assim como milhares e milhares de mulheres e homens, pessoas que lutam desde 2016 contra a derrocada da democracia no Brasil”, sublinhou.

Segundo a ativista, “conjugaram-se várias opressões: de raça, de classe, de género e da falta de democracia”.

A intervenção militar no Rio de Janeiro “demonstrou que são vários os cenários” possíveis daqui para a frente no Brasil “e que, inclusive, um deles é não haver eleição presidencial em 2018”, comentou Ana Caroline Santos.

“Temos várias coisas a acontecer e a conjuntura muda muito rápido no Brasil, mas isto demonstrou, com certeza, a necessidade de se discutir a participação política para além de eleições”, acrescentou a ativista, expressando o desejo de que “esta e outras manifestações que estão a realizar-se” contribuam “para um cenário de mudança”, num país dividido entre quem “está a ir para a rua para exigir democracia” e “quem acha que quem defende Direitos Humanos é quem defende os bandidos”.

Entre os presentes, vários empunhavam cartazes em que se liam frases como “Quem mandou matar Anderson e Marielle?”, “Execução sem disfarce”, “Marielle executada por ser negra e combativa”, “Contra a intervenção federal no Rio de Janeiro” e “Lisboa louva Marielle”, e alguns emocionavam-se à menção do nome da feminista brasileira, ela própria originária de uma favela, a Maré.

Houve muitos discursos ao megafone, não só de figuras políticas, como as deputadas socialista Isabel Moreira e comunista Rita Rato e da bloquista Joana Mortágua, como de figuras da cultura, como as atrizes Maria João Luís e Marina Albuquerque, e de imigrantes brasileiros em Portugal, cujo denominador comum foi a necessidade de transformar “o luto em luta".

Tentaram enterrá-la, mas mal sabiam que Marielle era semente”, disse um dos cidadãos brasileiros que discursaram.

No Porto, foram cerca de 300 pessoas que se concentraram-se diante do Consulado do Brasil. Organizada pela União de Mulheres Alternativa e Resposta (UMAR) e pelo artista plástico brasileiro radicado em Portugal, Sama, a iniciativa pretendeu ser mais do que uma "manifestação de solidariedade", sublinhando o caráter "icónico de Marielle", destacou o também autor de banda desenhada.

Marielle foi morta numa execução" lembrou Sama, para quem a política brasileira foi a "primeira vítima assumida do golpe de estado que destituiu Dilma [Roussef] da presidência do Brasil".

Destacando que em Marielle "é possível encontrar várias lutas numa pessoa só", Sama lembrou que ela "nasceu pobre e que por causa das políticas de integração venceu na vida, formou-se em Sociologia e em Ciência Política, sem nunca esquecer as suas origens".

Sama perguntou depois "para quem serve a polícia no Brasil", numa alusão à acusação levantada no país de que o assassínio terá sido perpetrado pela Polícia Militar, contra uma "política que fazia a coisa certa, que prestava as contas ao público que a elegeu".

Da parte da UMAR, a presidente Maria José Magalhães referiu-se à homenageada como sendo uma "mulher negra, feminista, lésbica, uma lutadora dos movimentos sociais, um ícone do movimento feminista que foi executada".

Estamos aqui para expressar a nossa indignação, para exigir ao governo do Brasil uma investigação, que condene os culpados e que pare com os assassinatos", acrescentou.

E prosseguiu: "eles pensavam que tinham matado a Marielle, mas o que conseguiram foi que ela se tornasse num ícone".

Na sua maioria mulheres e brasileiras, as manifestantes surgiram com várias frases em faixas, onde se lia "Marielle, presente", sendo possível ver outras com rosas brancas, numa manifestação que resistiu ao frio que se fazia sentir no Porto

Também em Braga, um protesto reuniu cerca de 50 manifestantes. O frio do início da noite não afastou o grupo que com cartazes, faixas e lágrimas lembrou a "cidadã, mãe, ativista e excecional" mulher de 38 anos que, defenderam, foi vítima de um assassinato político com quatro balas na cabeça, num "ataque à democracia".

Nove, foram nove tiros. Atingiram a mulher, a democracia, os direitos humanos e o sonho de um país livre", explicou à Lusa Márcio Sales, ativista brasileiro a tirar o mestrado em Portugal.