O Tribunal de Braga condenou hoje a 15 anos de prisão um jovem que matou com 27 facadas o padrinho, um aristocrata daquela cidade, num crime registado em outubro de 2012, no apartamento onde agressor e vítima viviam.

O coletivo de juízes sublinhou que o arguido agiu com especial perversidade e censurabilidade, nomeadamente pela forma reiterada como desferiu as facadas, atingindo zonas vitais da vítima.

O facto de a vítima ser o próprio padrinho, que o criou desde que nasceu, foi outro fator que pesou contra o arguido.

O tribunal destacou ainda a débil compleição física da vítima, que lhe retirou qualquer hipótese de defesa.

Além disso, valorou também o «meio insidioso» usado pelo arguido, uma faca de cozinha com uma lâmina de oito centímetros.

A favor do arguido, os juízes apontaram a sua juventude (21 anos) e o facto de ter sido ele mesmo, no dia dos factos, quem ligou para a polícia e para o INEM a pedir socorro para o padrinho.

O arguido foi condenado por homicídio qualificado, um crime cuja moldura penal se situa entre os 12 e os 25 anos de prisão.

O arguido foi ainda condenado a pagar 15 mil euros à mulher da vítima, por danos não patrimoniais, sendo que a indemnização pelos danos patrimoniais será fixada pelos tribunais cíveis.

O advogado de defesa, Nuno Godinho, afirmou que pondera recorrer da decisão, nomeadamente por o tribunal não ter aplicado o regime especial para jovens.

Recorde-se que, a pedido da defesa, foi realizada uma perícia às faculdades mentais do arguido, que concluiu pela sua imputabilidade.

Durante o julgamento, o arguido confessou que na origem do crime esteve uma «violenta discussão» por causa de 80 euros.

Segundo o arguido, a vítima, que atravessava grandes dificuldades financeiras, ter-lhe-á exigido, no dia do crime (26 de outubro), que lhe desse, para ajuda nas despesas da casa, os 80 euros que ele teria acabado de receber, como pagamento de uns «biscates».

A questão terá gerado uma «discussão violenta» entre padrinho e afilhado, acabando em homicídio.

«Fiz uma coisa que não devia», referiu o arguido.

A vítima, Gaspar Roby, de 69 anos, era um dos quatro filhos da condessa de Infias, Braga.

Ele e a mulher eram padrinhos do arguido e acolheram o arguido quando ele tinha apenas 2 anos e oito meses.

Fizeram-no a pedido da Segurança Social, dado «os respetivos progenitores se encontrarem incapacitados de lhe prestar os cuidados necessários ao seu desenvolvimento saudável e harmonioso».

«Desde então, passaram a tratá-lo como se seu filho fosse», destacou o tribunal.

Anos antes do crime, o arguido começou a consumir produtos estupefacientes e álcool, em cuja compra gastava o pouco dinheiro que ia conseguindo com os «biscates» que fazia na montagem de portas automáticas.

A situação gerou «insatisfação» no casal que, entretanto, começara a passar dificuldades económicas e que, por isso, queria que o afilhado contribuísse para as despesas da casa.

As discussões foram sendo cada vez mais frequentes, sobretudo com a madrinha, mas a vítima mortal acabou por ser o padrinho, com quem, segundo o tribunal, o arguido até tinha «uma relação de proximidade».

A vítima foi transportada ao hospital, ainda com vida, mas viria a morrer às 00:50 do dia seguinte, no decurso de uma operação a que estava a ser submetido.