Na casa de Cristina, a estante do corredor está cheia de dedadas e beijos marcados no vidro. O armário guarda um tesouro que as filhas cobiçam: a colecção de 53 Barbies iniciada há nove anos com a boneca «Noiva», que o marido lhe ofereceu para a pedir em casamento.

Aos 40 anos, Cristina Coelho é uma das muitas coleccionadoras portuguesas da boneca norte-americana que segunda-feira faz 50 anos e se transformou num ícone da cultura pop.

Ainda namoravam quando, num fim-de-semana em que foram às compras, Cláudio decidiu fazer uma surpresa a Cristina: «deixou-me sozinha uns minutos, depois apareceu com a Barbie Noiva e pediu-me em casamento», recorda.

Uns tempos mais tarde recebeu a Bailarina, «porque também tinha andado no ballet», e depois começou à procura pelas lojas de brinquedos, supermercados e museus. Na colecção há também bonecas em segunda mão, compradas em feiras ou sites na Internet. Nas noites livres, normalmente ao fim-de-semana, o casal chega a passar horas frente ao computador a comparar preços, à procura de mais uma relíquia para a colecção que não pára de crescer. A filha Maria, de seis anos, é que não se cansa de repetir às visitas: «a minha mãe tem mais Barbies do que eu».

À noite, antes de irem para a cama, Maria e a «terrorista» Madalena, de 20 meses, gostam de se despedir das bonecas da mãe. «Dizem boa noite, dão beijos e metem as mãos no vidro. Nunca consigo ter a vitrina limpa», diz Cristina com um sorriso. A boneca mais cara da colecção custou 90 euros, mas o próximo investimento da família vai para a compra de uma estante nova, que já foi estrategicamente desenhada para permitir que todas as bonecas tenham igual destaque.

Mais de 240 Barbies

Longe da casa dos Coelho, num apartamento moderno em Barcarena, os sonhos e projectos são semelhantes: Sara Gomes também quer comprar uma estante nova.

Uma das divisões da casa da jovem de 30 anos parece um verdadeiro santuário. Ali, tudo está relacionado com a boneca que surgiu no mercado português há 25 anos.

São mais de 240 Barbies cuidadosamente expostas nas dezenas de prateleiras das três vitrinas com mais de dois metros de altura. No topo das estantes, estão bonecas ainda dentro das caixas e, na base dos armários, caixinhas verdes onde Sara guarda os certificados de garantia. Há ainda uma caixinha só para os «pentes especiais» para os cabelos das bonecas e uma zona reservada aos livros da Mattel, que saem todos os anos com um inventário das bonecas e seu valor de mercado.

Na arrumação da casa, estão as mais de 200 caixas onde vinham as bonecas. A razão é simples: «se eu quiser vender uma boneca ela tem muito mais valor se tiver a caixa», explica a rapariga de origens humildes que recebeu a primeira Barbie aos oito anos, quando nasceu o irmão.

Entre as suas «relíquias» está uma cópia da primeira boneca, lançada em 1959, com o fato-de-banho branco às riscas preto. Em perfeitas condições, a boneca original pode custar 27.450 dólares. No e-bay, está neste momento a ser leiloada uma boneca original por 1.500 dólares, um valor muito abaixo devido ao seu mau estado de conservação.

Em sete anos, Sara Gomes já gastou com a sua colecção um valor que dava para comprar um carro novo. A mais cara custou-lhe 290 euros e hoje, no mercado, vale cerca de 500. «As Barbies são um pouco como a Bolsa. Um dia têm um valor e no outro, por causa da procura, já têm outro. É preciso estar atenta», diz a rapariga.

Quem não liga a preços é Rosa Vieira, 52 anos. Para ela, as suas «confidentes» são «um tesouro que não trocava por nada deste mundo».

Natural de Alcanena, já perdeu a conta ao número de bonecas que tem e não faz ideia do valor comercial da colecção, que conta com muitas outras bonecas que fizeram história nos últimos anos. Com uma colecção de 5.050 peças, as Barbies têm um valor especial para a coleccionadora, que no início não conseguia distinguir as originais das imitações. Hoje, diz, «a Barbie é a Barbie».