Um ataque à cidade de Ponta Delgada de um submarino alemão em 1917 motivou o estabelecimento da primeira base naval dos EUA nos Açores, disse à agência Lusa o historiador Sérgio Resendes.

«Se já havia esta noção, constatou-se na prática [com o ataque a Ponta Delgada] a má defesa das ilhas dos Açores. Cerca de 15 dias depois do ataque, os americanos já têm, informalmente, em Ponta Delgada, uma base naval, com navios americanos, sem que os seus tripulantes saiam dos navios», disse o investigador.

A 04 de julho de 1917, um submarino alemão, o U-155 «Deutschland», bombardeou a cidade de Ponta Delgada, provocando feridos, um morto e danos materiais. O ataque acabou por ser travado por um navio norte-americano, o carvoeiro «Orion», estacionado na ilha de São Miguel.

O ataque a Ponta Delgada surgiu no âmbito dos muitos saques de alemães, durante I Guerra Mundial, a navios que circulavam no atlântico norte, para se abastecerem, desestabilizando assim o fornecimento da Europa por parte dos EUA.

Sérgio Resendes explicou que os norte-americanos possuíam um navio carvoeiro em Ponta Delgada dada a relevância geoestratégica dos Açores e com a intenção de criar o primeiro depósito de carvão dos EUA para abastecimento das embarcações na travessia do Atlântico Norte.

«Por ter uma avaria no seu propulsor, o «Orion» tinha a popa elevada, porque estava em trabalhos de manutenção. Com a popa elevada, a peça de artilharia, de última geração, estava ligeiramente acima do porto de Ponta Delgada, o que permitiu bater de frente o submarino alemão», declarou o historiador, que publicou este ano, em que se assinala o centésimo aniversário do início da I Guerra Mundial, o livro «A Grande Guerra nos Açores – memória histórica e património militar».

Sérgio Resendes refere as fragilidades de defesa de Ponta Delgada, por parte das autoridades portuguesas, sublinhando «a incapacidade das peças montadas no Alto da Mãe de Deus, por estarem colocadas numa colina no interior da cidade» e, por outro lado, por serem «peças de transição», de finais do século XIX.

«O bombardeamento de Ponta Delgada veio demonstrar não só as graves lacunas que o Governo português tinha na defesa das ilhas, como também confirmar a necessidade dos aliados terem uma atenção especial ao mar dos Açores por estar desprovido de uma marinha de superfície», explicou.

O historiador, que gosta de dividir a história dos Açores, durante a Grande Guerra, no antes e depois do bombardeamento de Ponta Delgada, destacou que se, por um lado, os açorianos se sentiram «mais protegidos» com a presença dos EUA, ela também «lançou um certo desconforto nas autoridades civis e militares, porque não havia nada oficializado» com o Governo português.

Só em finais de 1917 os EUA pediram, oficialmente, o estabelecimento da sua primeira base americana de «marines», nos Açores, designadamente em Ponta Delgada.

De acordo com o historiador açoriano, foram criadas uma série de infraestruturas, com destaque para duas peças de artilharia montadas em Santa Clara e nas Feteiras, no concelho de Ponta Delgada, espaço para hidroaviões, a par da presença de submarinos.

Sérgio Resendes considera que a presença dos EUA nos Açores gerou também um «certo alívio» à economia local, que se encontrava «extremamente atrofiada» por os mercados de exportação estarem em guerra, a par da escassez do transporte.

O episódio do ataque a Ponta Delgada surgiu numa altura em que os EUA estavam a «afirmar-se como uma jovem nação» e «adquirem supremacia» em relação à Europa, um processo que começou antes da I Guerra Mundial e se acentuou durante o conflito.

O historiador sublinhou que a questão geoestratégica dos Açores, revelada por este ataque a Ponta Delgada, entre outros episódios, coloca-se desde os Descobrimentos, uma vez que o arquipélago tem um «papel privilegiado» no Atlântico, mantendo-se este no século XX e prevalecendo no século XXI.