«Há Palavras que Nasceram para a Porrada» é um projeto que junta o sociólogo Boaventura de Sousa Santos e rappers, para reafirmar o rap como «postura de resistência», e materializa-se num concerto em Coimbra a 12 de julho e em sessões pedagógicas.

Chullage (Nuno Santos), Hezbollah (Jakilson Pereira), LBC (Flávio Almada) e Capicua (Ana Fernandes) reuniram-se com Boaventura Sousa Santos, debatendo três formas de domínio - «capitalismo, patriarcado e colonialismo» -, para, a partir do debate e dos tópicos lançados por Boaventura, criarem as suas músicas.

O convite surgiu pelo interesse do diretor do Centro de Estudos Sociais (CES) da Universidade de Coimbra no rap, que descobriu há cerca de 10 anos. Sousa Santos encontra nesse registo e nas suas características musicais uma possibilidade de criar «uma crítica», a partir de um estilo «onde a voz e a palavra têm um papel fundamental». O sociólogo diz à Lusa que o código de narrativa e estilo das ciências sociais não lhe permitia ter «um discurso quente»: «Impunha-me um discurso mais racional, que vai contra a subjetividade, os ódios e os amores.»

Boaventura Sousa Santos escreveu um livro de rap, editado no Brasil em 2010, intitulado «RAP Global», no qual diz que «a raiva é a saliva da alma», uma expressão que leva para a vontade de «expressar certos sentimentos, mobilizando as energias das emoções» e rejeitando a domesticação e mediação que tem de fazer como sociólogo.

«Enquanto as ciências sociais perdiam energia política, enquanto a esquerda perdia energia, estes jovens revoltavam-se e assumiam e assumem uma postura de resistência com dimensão artística», diz, considerando que o rap ocupou o espaço da música de intervenção contemporânea.

«Estes jovens insurgem-se e dizem: não somos pobres, somos empobrecidos, não somos inferiores, somos inferiorizados. Recusam a ideia de que não há alternativas e são importantes para uma sociedade tão empobrecida de coragem, de capacidade de desenhar alternativas», enalteceu o sociólogo.

Segundo a artista Capicua, que no projeto aborda temas como «o género ou a segregação urbana», o rap é «como um desporto de combate que cumpre um espaço importante na música de intervenção», acrescentando que há uma associação entre o rap e a sociologia na «desconstrução e questionamento das dinâmicas sociais, culturais e políticas».

Muitos rappers «ocupam o espaço deixado pelos cantautores», em que a «música está ao serviço da palavra» e sempre com uma «preocupação política e uma responsabilidade social», afirmou Capicua, referindo que uma das músicas que nasceu a partir do projeto, «A Mulher do Cacilheiro», está presente no seu álbum «Sereia Louca».

«Os rappers são uma espécie de sociólogos», explicou Flávio Almada (LBC), apontando para o género musical como uma «forma de produção de conhecimento» que socialmente «é bastante estigmatizado».

De acordo com LBC, «é fundamental haver um diálogo entre a academia e o hip-hop, porque isso dá profundidade à própria cultura», enaltecendo que «o trabalho de rappers portugueses não é diferente daquilo que Sérgio Godinho, Zeca Afonso ou José Mário Branco fizeram».

O concerto está integrado no Colóquio Internacional de Epistemologias do Sul, que se realiza de 10 a 12 de julho, do projeto de investigação ALICE, em que se procura repensar e renovar o conhecimento sociocientífico.

Para além do concerto, no próximo ano letivo pretende-se incorporar o trabalho feito com os rappers em sessões pedagógicas em escolas do país.