O bastonário da Ordem dos Médicos anunciou, esta quarta-feira, em Bragança, que pediu um inquérito à Inspeção Geral das Atividades da Saúde (IGAS) ao caso do acidentado de Chaves que percorreu centenas de quilómetros para ser atendido em Lisboa.

José Manuel Silva afirmou que não tem dúvidas de que «alguma coisa correu mal» e que «é preciso perceber porquê, nomeadamente entender se tem a ver com os cortes na Saúde e com a desorganização que isso está a impor ao sistema».

«Eu não conheço exatamente os contornos da situação, mas é evidente que alguma coisa correu mal e por isso mesmo a Ordem dos Médicos tomou a iniciativa de formalmente solicitar à IGAS que proceda a um inquérito e que comunique à Ordem dos Médicos as conclusões desse inquérito», concretizou.

Para o bastonário dos médicos, «é inaceitável que um doente politraumatizado tenha que percorrer centenas de quilómetros para ser devidamente assistido», como aconteceu com o jovem de Chaves que teve de percorrer 400 quilómetros em ambulância para ser assistido em Lisboa por alegadamente não haver vaga nos hospitais do norte para a especialidade médica de que necessitava.

«Esta incapacidade de resposta nesta situação concreta é bem o exemplo de que o Serviço Nacional de Saúde (SNS) está a falhar e que o ministério tem de olhar com outro cuidado para os doentes que precisam de um Serviço Nacional de Saúde com qualidade e com eficiência», declarou.

José Manuel Silva, falava em Macedo de Cavaleiros no início de uma visita de dois dias ao Distrito de Bragança e que é também o arranque de uma iniciativa da Ordem dos Médicos que vai percorrer todo os distritos do país para recolher testemunhos do que se passa na Saúde e elaborar um relatório para entregar ao Governo.

O exemplo de Chaves «ilustra bem», na opinião do bastonário, «que não se pode desinvestir mais na Saúde no interior do país». «Não se podem afastar mais os recursos, nomeadamente médicos, nomeadamente no Distrito de Bragança, não se pode afastar mais os recursos da população», vincou.

O apelo que a Ordem dos Médicos deixou é que «se olhe com mais respeito para os cidadãos» do interior e que se discrimine positivamente estas regiões.

O bastonário reiterou ainda o alerta para outras consequências das políticas de saúde que afetam o país, nomeadamente a insuficiência de camas hospitalares, afirmando que «este Governo tem tido a preocupação de, por razões economicistas, fechar mais camas hospitalares» quando Portugal tem um número «muito abaixo da média da OCDE e cerca de um terço do número de camas hospitalares da Alemanha».

José Manuel Silva alertou para a «desumanização e falta de qualidade» do sistema com estas medidas e responsabilizou «o Ministério da Saúde porque levou os cortes na saúde mesmo para além daquilo que foi indicado pela troika».

«A troika disse que para 2014 não deviam ser feitos mais cortes na Saúde, e no entanto estão a ser feitos mais cortes. Era impossível que o sistema não começasse a sofrer as consequências, não começasse a ter dificuldades de resposta e, como sempre, em última instância quem sofre são os doentes, isso é absolutamente inaceitável», apontou.