Tirou um curso que lhe podia dar uma profissão "real", mas o sonho acabou por falar mais alto. “Só quando comecei a tentar é que percebi que afinal era possível.” 

O sonho era a banda desenhada e o protagonista desta história é Miguel Mendonça, o português que já desenhou uma das personagens mais icónicas da cultura pop: nada mais nada menos do que o Batman.

Aos 33 anos, este desenhador algarvio, de Olhão, é um dos grandes embaixadores do talento nacional no plano da banda desenhada, trabalhando para uma das maiores editoras do mundo, a americana DC Comics. 

Recentemente, teve a oportunidade de desenhar o Batman, na série Detective Comics, que saiu este mês, a 10 de janeiro, nos Estados Unidos. 

Esta personagem icónica trouxe-lhe, por um lado, a concretização de um objetivo, mas, por outro, uma grande “pressão”. Afinal, falamos de um super-herói que “já foi desenhado por algumas das maiores lendas da banda desenhada de sempre”.

É uma mistura de orgulho com pressão. Por um lado, ter a oportunidade de desenhar um ícone da cultura pop mundial é uma sensação de objetivo ou sonho alcançado. Por outro, sentimos sempre a pressão de estar a pegar numa personagem que foi trabalhada por algumas das maiores lendas da banda desenhada de sempre e há sempre o receio de não estar à altura da tarefa em mãos. Mas acho que correu bem”, sublinhou à TVI24.

 

 

Mas antes de desenhar o Batman, Miguel Mendonça já tinha trabalhado para outros grandes títulos da DC, tais como Nightwing, Green Lanterns, Trinity e Wonder Woman (Mulher Maravilha). Foi, de resto, a Mulher Maravilha que lhe abriu as portas na DC, no final de 2015, como nos contou.

“Antes de trabalhar para a DC, tive a oportunidade de colaborar com uma editora americana mais pequena chamada Zenescope. Após algum tempo a trabalhar com eles tive a oportunidade de trabalhar com uma autora chamada Meredith Finch. Ela estava, ao mesmo tempo, a trabalhar com a DC na série Wonder Woman, com o seu marido, que é desenhador e estrela dos comics David Finch. A dada altura surgiu a oportunidade de colocarem um artista substituto para um dos capítulos que o David não conseguiria fazer e nesse momento a própria Meredith fez-me o convite. Tenho estado a trabalhar com eles desde então.”

 

Trabalha a partir de casa, sendo que muitas vezes vai para um estúdio, perto da residência, que funciona como local de trabalho. "Normalmente faço um livro de 20/22 páginas num mês. Isto implica fazer praticamente uma prancha por dia. E uma prancha leva à volta de 10/12 horas a concluir", explicou.

Miguel desenha desde que se lembra. Em pequeno desenhava desde os bonecos com que brincava a objetos aleatórios que encontrava pela casa e sem especial critério.

O interesse pela banda desenhada surgiu depois, quando descobriu as coleções franco-belgas do irmão mais velho, que incluíam títulos como Astérix, Lucky-Luke ou Os Estrunfes. 

Na primária começou a interessar-se por anime e mangá (a banda desenhada japonesa), tendo o Dragon Ball sido uma das suas mais importantes influências.

O facto de querer desenhar como os desenhos que via na televisão obrigava-me a praticar diariamente”, recordou. 

Depois, na adolescência vieram os comics americanos. “O Super-Homem deve ter sido o super-herói que mais esbocei na vida, com grande influência de Dan Jurgens e mais tarde Jim Lee”, frisou. 

Miguel lembra-se que lhe diziam muitas vezes a mesma frase: “grande talento, tens futuro!”. Mas sempre que ouvia estas palavras não podia deixar de se questionar: “Mas tenho futuro como? A fazer o quê? Pensava eu”.

Naquela altura fazer banda desenhada como profissão era algo impensável, não via à minha volta ninguém que o fizesse, era algo inalcançável aos meus olhos”, admitiu.

Foi por isso que acabou por tirar o curso de design. Uma via através da qual poderia ter uma "profissão real".  “O curso de design acabou por surgir nessa procura pela profissão ‘real’ onde pudesse aplicar a minha tendência natural para o desenho”.

Mas a banda desenhada acabou por falar mais alto e cheguei a uma altura que percebi que teria que tentar perseguir este sonho, desse por onde desse. Só quando comecei a tentar é que percebi que afinal era possível”, vincou.

Nessa altura, Miguel começou a desenvolver portfólio de banda desenhada, não só para melhorar o seu traço como para poder mostrá-lo a editoras. E passou também a frequentar mais ativamente eventos ligados ao meio.

Perseguiu o sonho e chegou a uma das maiores editoras do mundo. Mas além do talento, há algum segredo para o sucesso? “Diria que o segredo é o foco. Só ao focar-me naquilo que queria realmente fazer (banda desenhada) é que comecei a perceber que o sonho não era tão inalcançável assim”, respondeu.

Espreite o trabalho de Miguel Mendonça navegando através da galeria de imagens acima.