Os desalojados do bairro de Santa Filomena, Amadora, que este sábado ocuparam a Igreja Matriz naquela cidade, abandonaram o local durante a tarde e aguardam provisoriamente em instalações da paróquia para falar com um responsável eclesiástico.

«Nós não temos meios logísticos para os albergar, nem capacidade de resposta para o problema da falta de habitação», admitiu à agência Lusa o padre António Faustino, explicando que as pessoas que permaneciam no interior da igreja vão passar a noite provisoriamente «num ATL desocupado» até poderem falar com um responsável do patriarcado.

Um grupo de desalojados do bairro de Santa Filomena, que viu as suas construções demolidas na terça-feira, ocupou na manhã deste sábado a igreja e, numa carta enviada ao Patriarca de Lisboa, a comissão de moradores e o coletivo Habita, pedem que «a Igreja permita que estas pessoas possam ter um teto para viverem, ainda que temporariamente, para fazer face a este Estado de Emergência e Necessidade em que foram colocadas pela ação direta da câmara» da Amadora.

«Os moradores apelam para que a Igreja se envolva» nas negociações com a Câmara Municipal da Amadora, não só pela «suspensão obrigatória de todos os despejos previstos para o bairro», mas também para ser encontrada «uma alternativa habitacional» para estas famílias que desde terça-feira não têm onde dormir, segundo o teor da carta enviada ao patriarca Manuel Clemente.

Os moradores abandonaram a igreja, cerca das 15:00, após receberem a garantia do pároco de que no domingo de manhã se deslocará à Amadora um responsável do Patriarcado de Lisboa.

O padre António Faustino acrescentou que já antes o templo havia sido ocupado por moradores de Santa Filomena.

«Não queremos uma casa de favor, só pedimos que nos ajudem, porque não conseguimos alugar uma casa no mercado livre», comentou Eurico Cangombi, morador que na terça-feira viu ser demolida a casa onde habitava desde 2006.

Os desalojados entraram pelas 09:30 na Igreja, durante a missa, e recusaram-se depois a sair.

A PSP mobilizou para o local meios da esquadra da Reboleira, mas a polícia não chegou a intervir, apoiando apenas na solução provisória disponibilizada pela paróquia.

Colchões, roupas e comida foram transferidos para o anexo desocupado junto ao templo.

«A Câmara da Amadora deve suspender as demolições porque o PER [Programa Especial de Realojamento] está desatualizado», defendeu Rita Silva, do coletivo Habita-pelo Direito à Habitação e à Cidade.

A ativista garante que «40% do bairro está fora do recenseamento» efetuado há mais de 20 anos e que «mesmo as pessoas abrangidas pelo PER estão muito desiludidas porque estão a ser encafuadas nove e dez pessoas na mesma casa».

A presidente da Câmara da Amadora, Carla Tavares (PS), disse à Lusa que a autarquia «fez demolições na terça-feira, como tem vindo sempre a fazer, e ninguém nesse dia ou nos seguintes se dirigiu à câmara ou aos serviços sociais para acionar os mecanismos de emergência social».

«Não houve, em momento algum, qualquer contacto com os serviços da câmara ou da Segurança Social», frisou a autarca, acrescentando que todas as situações de pessoas não abrangidas pelo PER são acompanhadas pelos serviços da área social.

Quanto à suspensão das demolições, Carla Tavares é taxativa, afirmando que «a Câmara não vai suspender o PER e continua empenhada em resolver o problema dos bairros degradados do concelho».

A Câmara da Amadora demoliu na terça-feira sete construções clandestinas no bairro de Santa Filomena, de famílias não inscritas no PER e deve concluir este ano a demolição das restantes barracas.