Os números negros da sinistralidade no Itinerário Principal 4 (IP4) sustentaram a reivindicação de uma autoestrada alternativa a esta via, na área dos concelhos de Amarante e Vila Real, e onde, em 20 anos, morreram 136 pessoas.

A ligação entre Vila Real e Amarante pelo IP4, a primeira via rápida a rasgar este território, ficou concluída em 1988. Até então a principal via de ligação ao litoral era a Estrada Nacional 15 (EN 15) que subia e descia pela serra e a nova estrada permitiu poupar “duas horas na viagem” e ainda “no desgaste das viaturas” e nos “combustíveis”.

Mas, apesar de melhorar as acessibilidades e já aproximar significativamente a zona do Porto e Trás-os-Montes, a nova estrada entrou também para a história desta região pelos números negros da sinistralidade.

Em 2000, foi criada a Associação dos Utilizadores do IP4 (AUIP4) precisamente para alertar para o elevado número de acidentes e de mortos nesta estrada e para reivindicar melhores condições de segurança rodoviária.

Dois anos depois, sociedade civil, autarcas e políticos juntaram-se para subscrever uma petição a reivindicar o prolongamento da Autoestrada 4 (A4), de Amarante até Bragança.

Na altura alertava-se também para os índices de tráfego do IP4, “muito mais elevados do que aqueles para que a estrada foi construída”.

Essencialmente o que se reivindicava era que as pessoas deixassem de morrer no IP4”, afirmou hoje à agência Lusa Henrique Baptista, que foi dirigente da entretanto desativada AUIP4.

Segundo esta associação, o ano mais negro da história do IP4 foi em 2004, quando morreram 33 pessoas em toda a sua extensão, desde Amarante, Vila Real a Bragança.

Segundo dados fornecidos à agência Lusa pela Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária (ANSR), nos concelhos de Vila Real e Amarante houve, nesse ano, 111 acidentes com vítimas e 22 mortos.

Em 2005, o IP4 foi alvo de uma intervenção, a nível do piso e sinalização, foram ainda colocadas balizas rebatíveis de posição ao eixo, pequenos separadores que aplicados nas zonas consideradas mais perigosas da via.

E, após esta intervenção, os índices de sinistralidade diminuíram consideravelmente.

De acordo com a ANSR, em quase 20 anos, entre 1996 e 2015, registaram-se 1.273 acidentes com vítimas no troço compreendido entre Amarante e Vila Real. Destes acidentes resultaram 136 mortos, 200 feridos graves e 1.807 feridos ligeiros.

É precisamente para este troço que a Autoestrada do Marão – Túnel do Marão, que abre às 00:00 de domingo, se apresenta como alternativa.

Com a nova via pretende-se a redução de 26% da taxa de sinistralidade grave, a diminuição do tempo médio de viagem e a garantia de mobilidade em condições atmosféricas adversas (gelo e neve), que às vezes condiciona o IP4 no seu ponto mais alto, o Alto de Espinho.

Já era altura de homenagear todas as pessoas que perderam a vida no IP4. Só os números negros da sinistralidade justificavam a nova via e é de bom grado que vemos esta autoestrada finalmente a abrir”, salientou Henrique Baptista.

No entanto, o responsável disse que espera que agora “não se abandone” o IP4 e que esta estrada continue a “merecer a devida atenção e manutenção”, porque “há muitas pessoas que vão continuar a usar esta via, até porque o Túnel do Marão é portajado”.

Este ano morreram duas pessoas neste itinerário. Henrique Baptista referiu que o piso do IP4 começa a “revelar sinais de degradação, que é preciso ter em atenção”.