Dezenas de pessoas juntaram-se este sábado, no centro do Porto, para se solidarizarem com as doze vítimas do atentado ao jornal francês «Charlie Hebdo» e se baterem pela liberdade de expressão.

Um dia depois de centenas se terem reunido em frente à câmara da cidade para prestar homenagem ao cartoonista George Wolinski (uma das vítimas do massacre e membro do júri do Porto Cartoon desde 2004), voltaram a ler-se na cidade as palavras de ordem «Somos todos Charlie», desta feita em redor da estátua do Ardina, junto à Praça da Liberdade, ou não tivesse este sido um protesto que juntou maioritariamente jornalistas.

Ainda que sem um organizador assumido - o ajuntamento foi divulgado através das redes sociais -, foi lido um discurso em que se dizia que defender a liberdade e a democracia «é uma obrigação de todos os homens sem amarras, cidadãos conscientes e comprometidos com uma sociedade responsável, esclarecida e plural».

Junto à estátua, foi ainda colocado um cartaz com uma das mais famosas capas do Charlie Hebdo, que ilustra um cartoonista do jornal a beijar um muçulmano sob o título «L'amour plus fort que la haine» («O amor mais forte que o ódio») e que serviu de mote para que um grupo de franceses entoasse o hino do país, de caneta (ou lápis) em riste.

Presente no evento, Onofre Varela, cartoonista, sublinhou a necessidade de lutar contra um «vandalismo que grassa graças a Deus».

«Tenho ouvido dizer que deve haver uma autocensura e isso preocupa-me», lamentou, garantindo que «os caricaturistas não insultam a divindade, apenas caricaturam palavras e atos de extremistas radicais».

A questão da liberdade de expressão foi também abordada por Amílcar Correia, jornalista e diretor do P3, suplemento do Público. «Não nos podemos deixar levar pela autocensura. Embora aqui ninguém viva com medo do fundamentalismo islâmico, há outros medos. Há uma autocensura subliminar e a profissão deixa de ser levada ao extremo», frisou.

Mas nem só jornalistas estiveram presentes no evento. Fernanda Rodrigues, de 69 anos, fez questão de se juntar, de cravo na mão, num «ato de solidariedade de profunda indignação relativamente ao que aconteceu».

«Não é só a liberdade de expressão que está em causa, é também a democracia e o nosso modo de vida. É preocupante que as pessoas não tenham lugar na sua vida para a crítica», disse.

Três homens vestidos de preto, encapuzados e armados atacaram na manhã de quarta-feira a sede do jornal «Charlie Hebdo», no centro de Paris, provocando 12 mortos (10 vítimas mortais entre jornalistas e cartoonistas e dois polícias) e 11 feridos.

Criado em 1992, o semanário «Charlie Hebdo» tornou-se conhecido em 2006 quando decidiu voltar a publicar cartoons do profeta Maomé (inicialmente publicados no diário dinamarquês Jyllands-Posten), que causaram polémica em vários países muçulmanos.

Desde quarta-feira, registaram-se três incidentes violentos na capital francesa, incluindo um sequestro, que, no total, fizeram 20 mortos e começaram com o ataque ao «Charlie Hebdo».

Para domingo está agendada uma manifestação em Paris em que participará grande número de líderes políticos europeus, entre eles o presidente francês, François Hollande, a chanceler alemã, Angela Merkel, e o primeiro-ministro português, Pedro Passos Coelho.