Cinco meses depois do naufrágio nas Astúrias, ainda falta recuperar dois corpos da embarcação «Mar Nosso». Os corpos dos pescadores deverão estar ainda presos no barco e as famílias querem que eles sejam recuperados - e que seja o armador espanhol a custear a operação - para poderem fazer o luto.

Os familiares do naufrágio do «Mar Nosso», juntamente com a autarquia de Vila do Conde e a Associação Pró-Maior Segurança dos Homens do Mar acusaram, ainda, o armador espanhol do arrastão de os enganar e ameaçam recorrer aos tribunais.

Em conferência de imprensa de hoje, os envolvidos nesta batalha pelo resgate dos corpos, para que as famílias possam fazer o seu luto, «denunciaram aquilo que está a acontecer», afirmando que continuam a lutar para que os corpos dos dois pescadores desaparecidos ao largo das Astúrias, a 17 de abril, sejam retirados do casco da embarcação, reclamando que seja o armador a custear a operação.

Elisa Ferraz, a presidente da Câmara, defende que o armador os enganou, justificando: «Desde o primeiro momento o armador manifestou-se completamente disponível para fazermos um trabalho de prospeção. Depois, começamos a sentir que aquela disponibilidade se estava a desvanecer».

A autarca contou que a Câmara pediu orçamentos para a prospeção, num valor que ronda os 300 mil euros e inicialmente o armador se prontificava a pagar.

«Reunimos com o armador e compreendemos que estavam de lado a estas situações, deram o dito por não dito e não iriam cumprir aquilo que tinha sido a decisão inicial», contou Elisa Ferraz, revelando que «Claudino Gonzalez desapareceu, num desprezo total pelas vidas».

É uma atitude «desumana»

José Festas, presidente da Associação Pró Maior Segurança dos Homens do Mar, alega que o armador não quer resgatar os corpos porque não quer pagar os custos da operação.

«Há dois seguros que eles podem acionar, um de responsabilidade civil e o do barco, ou seja, se eles em 700 mil euros que é o valor do barco, se gastarem 300 mil, só lhes pagam 400. Já era mexer-lhes no dinheiro».O dirigente considera a atitude do armador «desumana».

Margarida Santos, mulher de Francisco Santos, um dos desaparecidos, lamentou a falta de justificações da parte dos sobreviventes. «Nunca vieram falar connosco, contar o que se passou», disse.

Para a viúva, «ele [o armador] foi uma pessoa muito inteligente, sempre disse o que a gente queria ouvir, foi ganhando tempo, passaram quatro meses e agora vem o inverno. Enganou-nos a todos».

«Eu acho que o armador tem o dever moral de trazer os nossos maridos para cima. O meu marido trabalhou 17 anos naquela empresa para agora dizer, pronto acabou, têm de se conformar com a ideia», contou.

Margarida Santos lembra ainda as dificuldades que está a ter, tal como Alexandrina Carinho, mulher de Manuel Carinho, outro desaparecido, a nível burocrático, uma vez que o marido não é considerado morto, mas sim desaparecido.

«Não temos certidão de óbito, nas finanças não podemos fazer nada, a nível burocrático está como desaparecido».

Alexandrina Carinho, que além do marido tinha um cunhado a bordo, que sobreviveu, revela que este nunca lhe deu uma explicação.

«Ele veio no dia a seguir e eu perguntei-lhe o que era feito do meu marido e ele disse que não sabia. Passa por mim, vira-me a cara, ninguém fala comigo»

No final, famílias e entidades defenderam: «Pensamos agir judicialmente».

Elisa Ferraz apela ainda à geração de um «movimento nacional» através do qual seja possível «operacionalizar os meios para trazer o barco à tona ou ir buscar os corpos».